Ocorreu algo recentemente que me despertou um medo que a algum tempo eu achava estar livre.
Ao ver que um homem se aproximava, peguei meu chaveiro e posicionei a chave maior entre os dedos. Nessa hora me repreendi por ainda não ter comprado uma faca própria para esse fim, mas na verdade, acho que eu não conseguiria fazer nada com uma em mãos...ainda.
Quando se aproximou, ele estava com as mãos trêmulas e eu não entendi se era porque estava entorpecido ou se era de euforia. Quanto mais próximo ele chegava, mais forte eu fechava o punho, torcendo para me lembrar, ao menos do básico, que aprendi nas poucas aulas de Krav Maga que fiz.
Tenho uma colega que disse que eu tenho que ter mais presenças masculinas na minha casa: chamar meu irmão ou algum amigo para fazer alguma visita de vez em quando. Respondi que se os homens que eu conheço quisessem me ajudar, já o teriam feito. Sou eu por eu mesma. Como sempre.
Em certos lugares, cultua-se e fala-se muito do "sagrado feminino" e das delícias de ser mulher mas, nesses mesmos lugares, pouco se fala de suas angústias. A sociedade separou um mês inteiro para cuidar de suas mulheres, mas as abandona nos outros onze. Em um dia específico distribuem rosas para todas as mulheres que adentram comércios, mas nos dias restantes, tratam apenas como uma vagina.
Numa atualidade em que vejo mulheres criticando mulheres, destilando barbáries e maldizendo os direitos que outras morreram para conseguir, me pego pensando no por quê, em pleno 2026, eu não posso me sentir segura em minha própria casa?...por que, em pleno século 21, eu fui obrigada a aguentar calada, as injustiças de outras mulheres, ditas para mim?... Por quê, num país onde a maior porcentagem é feminina, eu tenho que ter uma presença masculina se fazendo vista, como se estivesse marcando o território? Por quê tudo que sou, para essa sociedade suja, é tão insignificante quanto aquilo que posso "oferecer" ?

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