terça-feira, 13 de outubro de 2026

  Minha mãe tinha o apelido de Estela. Estelinha, para os mais íntimos. Um dia ela recebeu o telefonema de um de seus muitos amigos e, de longe, eu consegui ouvir o diálogo: 

- Estelinha, o Jesus morreu!

- Acho que você está um pouco atrasada, ele já morreu há dois mil anos.

 O Jesus ao qual Ruth, a amiga da mamãe, se referia, era um empresário do ramo editorial. Tinha um sobrenome latino, mas não me recordo muito bem qual era. Esse homem, que de divino só tinha o nome, foi patrão da minha mãe, quando ela trabalhou como vendedora de livros porta a porta, para uma editora chamada Sivadi. Nessa época, ter uma estante com vários volumes de livros de capa vermelha, era sinônimo de inteligência, integridade e bem aventurança. 

 O Jesus aqui apresentado era um homem cruel. Sua empresa de fachada lucrava milhões com o suor que pingava dos rostos de seus funcionários. Indo contra a lei do salário mínimo, os funcionários só recebiam por comissão, caso atingissem a meta de vendas. Mas, todos os dias, tinham que trabalhar. A Perua Kombi estava, diariamente e britanicamente em frente às casas dos vendedores, para buscá-los e, assim, adentrar as ruas no intuito de vender. 

 A mamãe sempre foi uma mulher extremamente cativante, alegre, divertida e doce. Ela, dificilmente, vendia...mas ganhava muitos amigos e presentes por onde passava. Ela nunca levava marmita e, por vezes, possíveis compradores notavam isso, ao observar que todos os vendedores pediam para ter suas marmitas aquecidas, menos ela. Era comum ela ganhar comida. A partir de um momento, quando não tínhamos aulas na escola, ela passou a nos levar com ela para o trabalho, prática, até então, comum entre os funcionários. Ela dizia que era porque não tinha com quem deixar os filhos mas, hoje, eu sei que era para dividir conosco as marmitas e lanches que ganhava. Uma vez, não lembro por qual motivo, somente eu fui ao trabalho com a minha mãe. Não me recordo onde meu irmão estava. Naquela vez a mamãe foi às ruas para vender e eu passei o dia dentro da Kombi, com a supervisora da equipe. Ao ver que eu estava com fome, ela comprou uma coxinha e um moranguete para mim. Eu realmente estava com fome e comi. Quando eu, finalmente, reencontrei minha mãe, a supervisora disse que havia me dado um lanche. No caminho de volta para casa, já fora da Kombi e das instalações da editora, mamãe me perguntou, de cabeça baixa, se eu havia deixado um pedacinho do lanche para ela. Eu paralisei, abaixei a cabeça e disse que havia comido tudo, e senti meu coração apertar e um nó se fazer na minha garganta. Hoje, enquanto escrevo, penso que essa cena, esse recorte da minha vida e da vida da mamãe, se assemelha a um trecho do livro O Sonho no Caroço do Abacate em que, de tanta vontade, a personagem comeu o abacate e o seu caroço. 

 Houve uma vez em que o Jesus queria entrar para o ramo dos livros acadêmicos. Ele, então, organizou uma espécie de concurso, onde quem se propusesse, deveria pesquisar, escrever e organizar um importante livro a ser utilizado pela área da enfermagem. O prêmio seria alguns dias de folga e o valor de 150 reais, uma grande quantia entre os anos de 1997 e 1998. A mamãe entrou no concurso, estudou muito, frequentou muitas bibliotecas, passou noites em claro e, no fim, ganhou. Ela escreveu, organizou e editou um livro que ganhou o nome de "Grande Compêndio de Enfermagem". 

 Ao pagar o prêmio, Jesus prometeu que o nome da minha mãe estaria como autora. Alguns meses se passaram e o livro foi publicado. No espaço onde fica o nome do autor, em que deveria estar o nome da minha mãe, estava o nome dele. Lembro que notei o clima amargo que se formou entre minha mãe e seu patrão, quando ela nos levava ao seu trabalho. Tenho lembranças de vê -la pela janela de vidro da sala da diretoria, tendo conversas calorosas. Pouco tempo depois, ele disse que os funcionários não poderiam mais levar seus filhos e minha mãe soube que era para atingi-la. 

 Uma certa noite, minha mãe chegou em casa chorando muito. Passaram-se alguns dias e eu notei que ela não estava mais indo trabalhar, chegando até a se esconder em casa, para que o motorista da Kombi da empresa não a visse. Eu fiquei feliz, pois, finalmente, tinha a minha mãe em casa. 

 Dias depois, minha mãe recebeu uma intimação: Jesus estava a processando por uma série de acusações, entre elas, abandono de emprego e a recusa de pagar aluguel. Sim, nós morávamos em uma das muitas casas que ele possuía e, além de trabalhar para ele, mamãe tinha que pagar aluguel. Nisso, dentre várias outras coisas, acho que sou parecida com mamãe: ela tinha seus momentos de doçura, mas também era repleta de malícia e sagacidade. Ela guardou todos os documentos da empresa e pôde, ao longo do processo, provar que a assinatura dela foi falsificada, que ela pagava sim os aluguéis e que era submetida a condições insalubres de trabalho. Mamãe ganhou a causa e ainda pudemos morar na casa por cerca de três meses. 

 Naquela tarde em que a Ruth deu a notícia para a mamãe, me bateu uma curiosidade e perguntei o que ocorreu para que a mamãe simplesmente deixasse de trabalhar na Sivadi. Ela, sem me olhar, disse que foi conversar com o Jesus para que, ao menos, ele pagasse uma parte dos lucros da venda do Compêndio para ela. Afinal, ela teve todo aquele trabalho. Ele respondeu com outra pergunta: "Que trabalho você teve? É o meu nome que tá lá! Sua cadela!" . Mamãe, com seus 1 metro e 47 centímetros, disse que saiu de si: avançou nele, o agrediu, cuspiu nele e o xingou de nomes que ela nem sabia que conhecia. Reparei que ela estava sorrindo, porém a expressão dos olhos era triste. Ela já estava doente nessa época e, acho, gostaria que as coisas tivessem sido diferentes...mas ela sabia que não tinha mais tempo para pensar sobre isso. Então ela, com o sorriso lindo que ela tinha, levantou dizendo "Não é porque morreu que vai ser santo né!", andou devagar até a sua poltrona, que ficava na sala ao lado de sua estante de livros, pegou seu novelo de lã e agulha de crochê, colocou os óculos e começou, mais uma vez, a crochetar um caminho de mesa...mais um dos inúmeros que a vi fazendo e que, hoje, não existem mais...assim como o compêndio que ela escreveu...



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