segunda-feira, 31 de agosto de 2026

  Esses dias estava escutando um podcast que falava sobre como lidar com o sentimento que fica quando você deixa de fazer algo que poderia ter feito. Esse episódio, de um podcast que não faz muito o meu estilo, mas o qual estou dando uma chance, me atravessou de várias formas. Acredito que não da forma que seria esperada.

 Certa vez alguém, em seu leito de morte, me olhou e fez um sinal para que eu chegasse perto, para falar algo em meu ouvido. Eu não cheguei perto. Fiquei com medo do que a pessoa me falaria. Tive medo de que a pessoa me fizesse um pedido que eu não poderia cumprir. Agora, pensando bem, acho que o mais provável é que seria um aviso ou uma previsão do que aconteceria, já que, antes de morrer, dizem termos um "flash" do que passou e, às vezes, do que acontecerá. Talvez eu não deveria ter deixado de ouvir...



  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

  Gatos gostam de presentear seus humanos com coisas que outros gatos gostariam de receber. Uma vez uma gata que eu cuidava me trouxe um passarinho de presente. Fiquei espantada ao perceber que o pequeno pardal ainda estava vivo. Peguei o presente e o levei para longe da gata, onde pude limpar seus ferimentos e fazer um curativo. A partir daí, cuidei do passarinho. Meu filho me perguntava todos os dias se o passarinho já estava bom e se poderia brincar com ele. O passarinho estava, aos poucos, se animando, chegando até a me bicar quando eu dava comida para ele. Eu o deixava num cômodo da casa onde a gata não tinha acesso. Um dia, porém, a gata conseguiu abrir a porta. Quando me dei conta, fui até o cômodo e encontrei o pardal caído. O peguei nas mãos e fiquei alguns instantes olhando para ele. Senti quando ele parou de respirar. Fiquei, ainda, certo tempo olhando pra ele e uma lágrima minha caiu em suas penas. Peguei um pedaço de tecido com estampa de flores, fui até o pequeno jardim que eu tinha e colhi algumas flores pequenas e folhas de hortelã e manjericão. Coloquei as flores e folhas no seu peito e fechei suas asas, para então envolve - lo com o tecido. Lembrei de um trecho do livro A Cabana, onde é feito algo similar. Nos dias que se seguiram, meu filho não notou a ausência do pardal e, quando finalmente perguntou, eu lhe disse que o passarinho tinha ido encontrar os pais dele.

 Desde a infância, os animais de estimação que tínhamos, quando chegava a hora, morriam perto de mim ou nos meus braços. Eu nunca quis entender o porquê, mas acredito que eles queiram partir perto de quem os faziam sentir seguros. Isso me faz sentir grata, mas ao mesmo tempo, dolorida. Sinto dor porque eu sempre penso que poderia ter feito mais. Porém na teoria tudo acontece, na prática é diferente. 

 Havia um cachorro que, como costumam falar, se adotou. Um dia eu abri a porta de casa e ele entrou. E ficou. No começo, eu e ele não nos dávamos bem. Até que um dia ele machucou a pata e a pessoa com quem eu morava disse que o "jogaria fora". Eu o defendi e, desde então, passei a ser cuidadora dele. Eu gostaria de compreender mais sobre essas relações de humanos e animais. Acho curioso o fato de alguns animais terem conexão com seus donos, quase como se pudessem falar e compreender. Tive um gato assim. Tenho muita saudade dele. A questão aqui é que, da mesma forma que eu protegia e cuidava daquele cachorro, ele também me defendia. Diversas vezes em que o ex tentou me agredir, o Zeus avançou nele. O ex possui as marcas das mordidas até hoje. 

 No fatídico dia em que tudo aconteceu, aquele homem deixou o Zeus na varanda e fechou a porta. Tenho certeza de que foi planejado, pois ele sabia que o Zeus me protegeria. Quando eu consegui ir embora, olhei para a varanda...o Zeus se aproximou do parapeito e olhou pra mim. Olhei pra ele com os olhos cheios de lágrimas, entrei na viatura e fui embora. Dias depois eu o via quando precisava voltar até a casa, para retirar coisas minhas e do meu filho. Sempre acariciava ele, colocava comida, água e trocava o pote de água dele de lugar, para que não ficasse no Sol. Depois, quando a casa foi desocupada, ele foi levado para a casa do avô do meu filho, onde reencontrou um amigo cão dele. 

 Ontem, minha amiga veio até a minha casa e, durante a conversa, sentimos uma brisa e o, popularmente chamado, cheiro de cachorro. Após minha amiga ir embora, recebi uma ligação do avô do meu filho dizendo que o Zeus havia falecido. O horário: aquele em que senti a brisa. Minha amiga disse que o Zeus veio se despedir de mim, pois eu fui muito especial para ele. Quero acreditar nisso, assim como quero acreditar que realmente existe um "céu", inclusive para os animais. Assim como quero ser crente de tantas outras coisas. 

 Com os olhos molhados, olhei para o céu e não disse nada...mas senti tudo.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 "Assim se conseguem as coisas boas na vida: devagar e esperando que aconteçam."


 Eu e meu irmão crescemos em um lar disfuncional, porém regado a arte. Talvez a arte fosse, também, a válvula de escape de nossos pais. Crescemos ao som de blues, jazz, rock, música clássica e as músicas que meu pai compunha, cantava e tocava. Hoje essas músicas levariam o título de gospel. Na tv, não podíamos assistir à novela nem nada da programação da rede globo, então assistíamos aos desenhos animados do SBT pela manhã e à tv cultura no restante do dia. Aos domingos, nada de Faustão ou Domingo Legal, o programa era documentários da tv cultura, como Planeta Terra e musicais. O resultado não poderia ser outro: desde a tenra idade, nutrimos o desejo de aprender a tocar algum instrumento musical, dançar, pintar, fazer algum tipo de arte.

 No meu quarto aniversário, ganhei um saxofone de brinquedo e, alguns anos depois, assisti a Lisa Simpson tocar um Sax semelhante. Coloquei, então, na cabeça que queria aprender a tocar saxofone. Porém saxofones e quaisquer outros instrumentos, eram caros. 

 O nosso pai era multiinstrumentista autodidata. Ele sabia tocar, mas não sabia ensinar. E não compreendia isso. Ele queria, a todo custo, nos ensinar a tocar seu violão, porém ele não sabia nem ensinar a posicionar os dedos nos acordes. 

 Alguns anos mais tarde, nossa mãe nos levou a uma loja de instrumentos musicais. Lembro - me até hoje de ver os dedos da minha mãe acariciarem as teclas do piano. Hoje penso que ela gostaria muito de ter aprendido a tocar. Lembro - me da escada caracol que subimos e que nos levou ao andar de cima onde vi o instrumento que cativou minha alma: o violino.

 Nutri por anos o desejo de aprender a tocar aquele instrumento tão pequeno e tão grande ao mesmo tempo. A algumas décadas atrás, não haviam tantas instituições que forneciam aulas gratuitas de música ou de quaisquer outras artes. Também não havia divulgação suficiente. Lembro que em algumas cartas que minha mãe escreveu, em seus momentos de angústia e súplica, ela chegou a pedir bolsas de estudos para nós em algumas fundações, onde aprenderíamos tais artes também. As cartas da minha mãe nunca foram respondidas. Ou, talvez, possam ter tido uma resposta que se perdeu, já que nós nos mudávamos tanto. 

 Pouco tempo após o falecimento da mamãe, vi uma reportagem na TV Cultura sobre o Projeto Guri. Coincidentemente, meu irmão havia pego, em uma oficina cultural, um guia chamado Sampa Sem, com um elencado de endereços de instituições culturais que ofereciam diversos cursos e serviços gratuitos. Nesse guia havia o endereço do pólo mais próximo de nós, do projeto guri. No dia seguinte eu e meu irmão fomos até lá e nos matriculamos, ele para aprender a tocar violoncelo, e eu, violino. O pólo tinha uma distância de cerca de 5 quilômetros a partir de nossa casa e nós íamos andando para as aulas. Não tínhamos dinheiro para a passagem de ônibus. Os pés e calcanhares doíam, mas depois de um tempo nos acostumamos. Na primeira aula de violino, a moça da secretaria disse que eu podia pegar um estojo e segui - la até a sala onde aconteciam as aulas de instrumentos de cordas. Escolhi o estojo número 10, um estojo verde. Nas aulas posteriores, quando o violino número 10 não estava disponível, eu escolhia o de número 22. Anos depois esses foram meus nicknames no msn e no Skype: @lidiaviolino10 e @lidiaviolino22. 

 As aulas na sala de cordas, como era chamada, eram a nossa fuga. Muitas vezes passávamos a noite em claro, pois nosso pai alcoolizado não havia nos deixado dormir. Houveram algumas vezes em que passamos a noite na rua, após ele nos expulsar de casa, e íamos direto para a aula. Era comum estar cansada às 10hs da manhã ou, às vezes, faltar na aula por conta do cansaço. O professor de violino não entendia e também não sabia das nossas condições, e criou certa "birra" comigo. Na aula em que ele ensinou a segurar e tocar com o arco do violino, eu faltei. Ele não me ensinou. Nas aulas que se sucederam, todos praticavam com seus violinos posicionados no ombro e com o arco em mãos. Eu não. Hoje chamam de bullying ou assédio moral o que aquele professor fez comigo. Doeu muito perceber que aquilo, aquela "cultura da humilhação", era e é comum no ambiente da música clássica. Eu murchei e pensei em desistir. Mas eu realmente amava o violino. Foi então que, creio que inconscientemente, quis ser autodidata como meu pai: perguntava aos colegas como segurar o violino e, na hora das aulas, tocava em pizzacato, porém com o violino no ombro. Quando tocava, olhava diretamente para o professor, que entendia que estava sendo desafiado. Na minha casa, eu treinava o empunhar do violino e as arcadas com meu "violino imaginário", pois não possuía um instrumento. Chegou o dia em que haveria uma apresentação musical com a orquestra e o professor não teve outra alternativa, a não ser me ensinar a tocar com o arco. Finalmente ouvi o ressoar da minha primeira arcada: feia, suja e desafinada...como na maioria dos meus começos. 

 Hoje tirei meu violino do estojo e toquei uma música. A vida não me levou aos caminhos que eu gostaria de ter seguido, nem às notas que eu gostaria de ter tocado. Hoje toquei uma música que gosto e fiquei triste por não ter o som que gostaria de ter, nem de ter alcançado o que eu, um dia, quis alcançar. Mas, assim como a música foi meu refúgio e me salvou diversas vezes, hoje tenho um pequeno pedaço de madeira para o qual me voltar e tocar, quando a minha alma pesar. Estou longe de ter o som que um dia almejei ter...mas ao menos faço ecoar no ar as notas soturnas do meu caminhar. Hoje olhei pro violino, baixei a cabeça e pensei que, talvez, tenha valido a pena não desistir. 




domingo, 23 de agosto de 2026

  Frequentemente vejo postagens com mensagens motivacionais, dizendo coisas do tipo "alguém se lembra de uma conversa que teve com você", "alguém se aproximou de Deus por sua causa", "o dia de alguém fica melhor porque te viu ou falou com você". Quando vejo essas mensagens, me questiono sobre a veracidade das mesmas. Como eu refleti algumas vezes, eu cativo as pessoas por alguns instantes, depois perdem o encanto... tal como Carol Vincent em sua triste e breve vida. Eu queria ter realmente cativado alguém. 

 Eu vou morrer. Isso é um fato da minha vida e da vida de todos os seres vivos. O momento,  porém, é uma incógnita. Quando penso nesse assunto, quase sem querer, me pergunto se após minha partida, alguém se lembrará com carinho de mim...se as palavras que eu disse ficarão na memória, se os sorrisos que eu dei estarão carimbados nas mentes, se os textos que escrevi serão lidos por alguém, se as músicas que toquei continuarão tocando alguém, se os presentes singelos que dei serão guardados como lembrança...se a lembrança de que, um dia, eu pisei nessa terra, será bonita...

 Eu costumava dizer às pessoas como são especiais e importantes na minha vida. Uma vez até disse o que sentia...quis falar pois achava que morreria naquele dia. Talvez eu realmente devesse ter morrido naquele dia e, por alguma falha na Matrix, estou viva. Eu não digo mais o que sinto. Não mais. Não digo, pois as pessoas estão acostumadas em menosprezar as palavras e sentimentos de outros. Não digo, pois o mundo carece de reciprocidade e empatia. As pessoas que eu tanto estimava parecem ter curta memória. Outro dia, uma até me questionou como nós havíamos nos conhecido... Não se lembrava das tardes incríveis que passamos juntas. No entanto, não falar, não significa que eu não sinta. Eu ainda sinto, e esse é meu castigo por continuar andando nessa terra, quando já deveria ter partido tantas e tantas vezes. 

 Por vezes eu me pergunto se, após meu partir, alguém se lembrará de mim como eu realmente era, da minha essência. Se se lembrará dos sorrisos, dos olhares, dos toques. Me pergunto se, da mesma forma que eu, involuntariamente faço, alguém se lembrará de mim e abrirá um sorriso ao olhar para as bolas de algodão colorido no céu...




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

  Esse inverno tem sido, particularmente, mais frio que o comum para mim. Ocasionalmente isso ocorre e eu mantenho os olhos atentos para o primeiro raio de sol da primavera. Na primavera começam a cair pequenas flores, ipês e similares, cuja visão aquece minha alma. Essas flores formam um tapete amarelo nas calçadas de alguns bairros e, quando eu era criança, achava que essas flores pequeninas eram pedacinhos do Sol. 

 Este inverno tem sido marcado por algumas notícias ruins, que me causam a apreensão e angústia de que eu tanto quero me libertar. As notícias dos últimos dias me levaram a pensar sobre as partidas, as despedidas em vida. 

 Soube, recentemente, do falecimento de um antigo colega. Lembro-me dele por seu jeito extrovertido e extravagante. Ele era escritor e uma vez me deu o rascunho de seu livro para eu ler. Confesso que não gostei, não fazia meu tipo de leitura. Mas eu disse à ele que gostei muito. Ele abriu um sorriso largo. No comunicado de seu falecimento, seu sobrinho descreveu o quanto ele havia sido importante e deixou a seguinte mensagem: "(...) A partida dele me ensinou uma coisa que eu queria compartilhar com todos os amigos dele aqui: Nunca deixem de dizer "eu te amo". A gente sempre acha que vai ter tempo depois, que vai ter outra visita, outra ligação, outro abraço. Mas a vida é agora. Se você tem alguém que ama, diga hoje. Ligue, abrace, mande mensagem. Não guarde o "eu te amo" pra depois.(...)"

 Como em À espera de um milagre, acho que esses momentos fazem parte dos nossos castigos na vida: ver pessoas que apreciamos partirem... até que chegue a nossa vez.

 Hoje, tenho poucas pessoas que realmente amo em minha vida. Há uma pessoa extremamente especial para mim, cuja importância eu nem consigo mensurar. Algumas atitudes dela vinham me causando estranhamento: alguns comportamentos, algumas falas... ela me presenteou com coisas que eram especiais para ela, na vida dela... e então veio uma notícia que eu não queria receber. Gostaria de ter feito como uma criança no jardim de infância, que tapa os ouvidos para não escutar. Ela é uma das pessoas mais incríveis que eu conheço e, perante a sua força, sua resiliência, sua vontade de seguir em frente e, ao mesmo tempo, sua conformidade...eu me sinto inspirada. E, ao mesmo tempo, minúscula e indigna. Sei, ela mesma me disse, que tenho algumas questões que me fazem ser assim e que não devo me culpar tanto...mas é inevitável não pensar em como alguém tão importante passa por isso...enquanto que alguém tão insignificante como eu, continua aqui, respirando... 

 Logo a primavera chegará e os pedacinhos de Sol cairão. Quero que caiam também minhas dores e todas essas situações tristes com as quais não tenho forças para lidar...




 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

  Hoje recebi uma notícia que deixou o meu olhar, que antes estava em tons pastéis, um pouco mais cinza. Nesse momento me pergunto, mais que o normal, o porquê...e torço para que as minhas orações, mesmo as silenciosas, mesmo as que faço apenas olhando para o céu e deixando uma lágrima escorrer, não sejam em vão. Espero que as minhas palavras, os meus pensamentos, o meu sentir, as minhas histórias não sejam em vão...  

 Ontem assisti um filme que estava na minha interminável lista de filmes para assistir. A direção não me cativou e, diga-se de passagem, o filme não envelheceu tão bem. Porém a ideia principal do roteiro me tocou. Terminei de assistir e me peguei reflexiva, ainda, horas depois sobre como seria se, aos poucos, todos os sentidos nos fossem tirados. Por último, foi retirado o olhar...e eu me imaginei sem olfato, sem paladar, surda, muda e cega, sozinha no mundo. Ainda restaria o tato e o sentir da alma...esse me pesa em excesso e, talvez, eu até gostasse de perde-lo. 

 Meu mundo, aos poucos, está perdendo a cor, ficando em preto e branco, assim como a minha imaginação e meus sonhos, quando eu era criança. Deus queira que eu não deixe de enxergar as bonitas sutilezas da vida, mesmo como em um filme fotográfico antigo. Mas, confesso, caso a notícia que recebi seja tão triste quanto o que penso que é...uma parte do meu mundo estará sempre em preto e branco...


 


sábado, 15 de agosto de 2026

  Hoje minha amiga está fazendo uma festa tipicamente brasileira, com o famoso churrasco, em sua casa. Eu, obviamente, não fui convidada. É uma festa de família e o namorado dela não gosta muito de mim e, como na maioria das vezes, sou muito querida por todos, mas não o suficiente para dividir momentos de confraternização. No fim das contas, talvez eu seja um pouco chata. Involuntariamente, lembrei-me dos vários churrascos e festas em que eu me preocupava em convidar pessoas queridas. Lembrei das risadas, das danças, das brincadeiras. E, engraçado, eu sempre convidava... raramente era convidada... Sem querer, lembrei do pós festa também... corriqueiramente o pós era ruim. Enfim, em outras épocas, eu me importaria. Mas hoje não. No momento tenho dores um pouco maiores com as quais me preocupar. De uns dias pra cá, tenho sentido dores diferentes, onde antes não doía... também dores que eu pensava estarem curadas, voltaram a se fazer ver. Muitas vezes, em minhas conversas solitárias, me pergunto o porquê de ser assim, ter nascido assim, ter passado por coisas assim. Triste pensamento humano que, com a vida adulta, tenho que fingir que não existem. Recebi uma dessas "mensagens do universo", me ensinando a como agir, como pensar, como falar com o Divino...vamos ver se, ao menos dessa vez, funciona. Creio ser minha última esperança... está ficando realmente pesado demais carregar o meu espírito...sempre lutando...sempre sozinha... 

 Um dos ensinamentos trazidos na mensagem, é o famoso pensamento positivo. Confesso que virei os olhos nos primeiros momentos do vídeo: eu, uma pessoa forjada a documentários, entrevistas "papo cabeça" e pensamento filósofo, dando ouvidos à lei da atração. Quase pude sentir a presença de uma senhorinha que trabalhou comigo, que prega feng shui, pensamento positivo e medicina chinesa e arruma briga com quem não concorda com ela. Ela, uma vez, disse que estou fadada a sofrer...pensei na ironia de uma mulher doente que reclamava das minhas risadas dizer isso pra mim. Não quero dar ouvidos àquela senhora, tão pouco encher minha casa de símbolos chineses. Mas, quem sabe, o pensamento positivo acabe sendo um analgésico para minha alma. 

 Ah, lembrei...eu já tentei isso antes...




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

  A um tempo, vi um vídeo sátira de uma garota que acompanho esporadicamente. O vídeo mostra um encontro, um "date", onde o homem tece elogios para a garota. Em suma, ele diz que ela é perfeita, porém ele quer encontrar alguém melhor para ele. Pode não parecer, mas o vídeo tinha tom cômico. Daí outro dia estava conversando com um ex ficante sobre o tema... na verdade foi mais uma daquelas conversas que parecem mais um monólogo, onde a pessoa não entende ou não quer entender sobre o assunto... um dos motivos pelos quais ele deixou de ser ficante. Enfim, acho que numa tentativa de me fazer parar de querer dialogar, ele disse que mulheres muito boas assustam os homens e que os homens admiram as mulheres fortes, mas sempre vão escolher as mulheres que parecem mais "submissas", mais simples e cheias de defeitos. O que ele disse me doeu onde a algum tempo não doía. Segurei meu sentir, assim como aprendi a segurar palavras, demonstrações e sentimentos. Fechei e apertei os olhos e senti o peso dos pensamentos que, involuntariamente, adentraram minha mente. 

 Voltei para o escuro e vazio do meu quarto, me deitei e os mesmos pensamentos que me fizeram perguntas, me deram a resposta e, mais uma vez, sufoquei o meu sentir. Lembrei - me da Mafalda...





quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 Ontem, sonhei com uma ventania que ameaçava levar longe o resto de coisas que existiam na minha casa despedaçada. Acordei com o pensamento que o pouco que havia me restado, o vento queria me tirar. Curioso que, a cerca de uma semana, houve uma ventania muito forte e repentina onde, hoje, eu vivo. Foi tão forte que dobrou os galhos da árvore em frente à minha morada. Eu, obviamente, levantei meus olhos para o topo da árvore, onde a visão funde a copa das árvores e o céu, e pedi que aquela mesma ventania que movia as folhas, as sementes e as areias, movesse, também, as minhas tristezas. 

 Há uma história sobre o compositor João Gilberto que diz que, certa vez, ele estava olhando por uma janela e lhe perguntaram o que ele estava fazendo. Ele respondeu que estava olhando o vento descabelando as árvores. Ao que a pessoa lhe disse que "árvore não tem cabelo", ele respondeu: "E tem gente que não tem poesia."

 Árvores e vento...duas forças sábias da natureza... 

 Eu tenho poesia...Algum dia valerá para alguém "ler"?



 

domingo, 9 de agosto de 2026

 Hoje é o segundo domingo de agosto. No Brasil, comemora-se o dia dos pais. E, hoje, eu acordei com uma tristeza diferente no peito.

 Todos os anos eu dedico esse dia à minha mãe. Entretanto, tenho pensado no meu pai e em sua vida, desde que descobri seu falecimento e desde que fui obrigada a refletir sobre coisas que parecem simples na vida, mas que, na prática, são de extrema dificuldade. O ato de perdoar, por exemplo. A maioria dos textos e conversas que vejo sobre o perdão são pura falácia. Mas isso, creio que seja tema para outro texto.

 Meu pai, certa vez, disse que estava pagando um preço alto por ter colocado no mundo uma família que não deveria existir. Achei até engraçado quando lembrei, hoje, que ouvi a mesma frase saindo da boca do meu ex marido. Em incontáveis momentos da minha vida me perguntei o porquê do meu viver, sendo que em outras incontáveis ocasiões, eu deveria ter morrido. Perguntava, também, o que teria acontecido se a minha mãe tivesse ido embora conosco numa certa noite, se certas palavras não houvessem sido ditas, se certas atitudes não tivessem sido tomadas. Me perguntava sempre o que teria acontecido se meu pai tivesse conseguido fazer aquilo que ele sempre tentava fazer. Me perguntava se, caso nós todos tivéssemos morrido em um dos muitos incêndios que ele causou, nós teríamos reencarnado numa vida melhor e mais justa. De uma semana pra cá, especificamente, venho me perguntando o que teria acontecido se minha mãe não tivesse comido a maçã que ele à deu. 

 Hoje, conhecendo os pormenores das histórias de alguns de meus ancestrais, consigo entender algumas situações. Porém, entender não é o mesmo que aceitar e esquecer. Hoje eu sou mãe e conto ao meu filho as histórias de nossa família. As histórias que meu filho ouve sobre meu pai contam sobre como ele era forte e dotado de esperteza. Contam sobre como ele era criativo, a ponto de fazer instrumentos de artes marciais para ensinar eu e meu irmão a lutar. Contam sobre como ele era um excelente músico e compositor, a ponto de aprender sozinho vários instrumentos musicais e ser convidado a gravar um disco, que só não existe porque não haviam condições financeiras para tal. Eu conto para meu filho que o avô dele nos contava histórias de terror à luz de velas e eram tantas histórias que acho que não escutamos todas. 

 Meu filho, na semana passada, me perguntou se o pai dele era um bom pai. Essa criança, que eu gerei, me surpreende a cada dia com sua maturidade. Eu exitei em responder e, diante da insistência, disse que era meu filho que tinha que pensar sobre a resposta. Ele ficou em silêncio e eu disse que o pai dele faz o que pode e é o melhor que consegue ser e, quando crescesse, ele iria entender melhor as coisas. 

 Ao contrário do que o pai dele diz, eu quis muito o meu filho e o amei desde quando o senti na minha barriga, mesmo sem saber que estava grávida. É engraçado falar, mas eu sabia que ele estava ali. Mas sabe, eu também queria uma situação diferente durante a minha gravidez. Eu queria alguém que beijasse a minha barriga, que conversasse com o meu bebê, que me abraçasse e entendesse que, além da depressão, meus hormônios estavam um caos. Queria alguém que me apoiasse, tocasse no meu rosto quando minhas lágrimas escorressem e me dissesse que ia ficar tudo bem. Queria alguém que não me mandasse parar de cantar para a  barriga. Queria alguém que, apesar das dificuldades financeiras, lutasse comigo para garantir ao menos as coisas básicas. Mas a vida aconteceu como aconteceu. Esperando um bebê, tive que conviver com a insegurança de não saber se a pessoa que deveria me apoiar chegaria entorpecida. Lembro de uma vez em que me revoltei de tal forma, ao ver a comida escassa e a sujeira branca no nariz dele, que bati minha cabeça na parede. A pintura da parede era em grafiato e minha testa ficou marcada por alguns dias. Na escola em que trabalhava, eu disse que cocei demais a testa. Ao invés de, ao menos, se desculpar e admitir o que fez, ele disse que não fez nada e me chamou de doente. A vida era muito difícil. Ficou um pouco mais na gestação. Depois do parto e da alta, ao chegar em casa, tive que fazer faxina, pois a casa estava numa situação ruim para acomodar um recém nascido. Meus pontos doeram por mais tempo que o normal. Uma vez, com meu filho no colo, houve uma briga, dessas que chamam de briga feia. Não sobraram coisas de vidro inteiras na casa, ficaram todas em pedaços no chão. Eu não limpei, pois estava agarrada ao meu bebê, com medo de que ele o pegasse de mim. 

 Eu queria que muita coisa na minha vida fosse diferente. Essa parte, também. Queria um pai pro meu filho que também fosse companheiro para mim, a mãe. Como em muitas situações na minha existência, não saiu como planejado.

 Ainda bem que existe o "depois".

 


sábado, 8 de agosto de 2026

 Lilás é minha cor favorita. Não roxo, não violeta, não lavanda. Lilás. Lembro que, quando eu era criança, me perguntaram qual era a minha cor favorita e eu disse azul. Engraçado que eu, uma menina fofinha, nunca tive rosa como cor favorita. Depois, mas ainda na infância, assisti A cor púrpura e perguntei à minha mãe o que era púrpura. Ela disse que era uma cor. Dias depois pedi para a minha professora de artes me mostrar a cor púrpura e ela disse que aquela cor ela não tinha, mas iria me mostrar uma cor parecida. Ela fez uma mistura de tintas e o resultado foi uma cor que preencheu meus olhos infantis: Lilás. E o resto, você já sabe.

 Estamos no mês de Agosto e somente esse ano soube o que significa o Agosto Lilás. Nesse mês, muitas instituições fazem campanhas de conscientização contra a violência doméstica e eu tive a sorte de encontrar um lugar que está oferecendo aulas de defesa pessoal para mulheres. Eu sempre pensei em aprender, mas desde o ano passado essa ideia se tornou uma necessidade. Se eu soubesse como me defender antes, teria poupado muita coisa... Teria cortado o mal pela raiz no primeiro sinal de desrespeito. Mas a vida aconteceu como aconteceu. A minha psicóloga diz para eu parar de me culpar com coisas que não são culpa minha. É como aquela música: "fácil de falar, difícil fazer."

 No primeiro dia de aula eu não queria ir. Estava depressiva e já imaginava o tipo de relato que iria escutar, tendo em vista o cunho da propaganda. Me forcei a ir e venci a batalha comigo mesma, ao menos naquele dia. Porém, como eu já esperava, encontrei mulheres que, assim como eu, passaram por situações horríveis. Ao saber dessas histórias, involuntariamente, revisitei minha antiga vida. Eu quis chorar. Mas, ao invés de chorar, soquei e chutei. Tenho que treinar mais. Quem sabe, com o tempo, as minhas defesas e meus ataques tenham o mesmo peso que as minhas dores. 




terça-feira, 4 de agosto de 2026

  Eu conversava com uma amiga sobre religião. O que foi, de certa forma, curioso, pois estes últimos tempos tenho refletido muito sobre o tema. Penso que se eu morresse hoje e me fosse dado o privilégio de ver minha mãe, ela me perguntaria em que momento fiquei tão perdida. Eu sempre digo que o desespero é o que faz as igrejas ganharem dinheiro. Compram a fé das pessoas, prometendo resoluções. Comigo não foi diferente. Porém, agradeço por ter uma mente que me permite ter o benefício da dúvida. Muitas vezes a dúvida e essa minha mania de observar, me fazem desacreditar. Alguns, como os entusiastas da lei da atração, diriam que não tenho fé o suficiente. Já me disseram que existe um modo certo de pedir as coisas à Deus, do contrário, Ele não atende os pedidos. Muitas pessoas me ensinam o modo certo de pedir, que varia da crença de cada uma dessas pessoas. Eu, em meus momentos de desespero, recorri a tudo e todos os modos. Acho que foi aí que me perdi. Já fui em tantos lugares que perdi a conta. Conheço todas as vertentes de igrejas protestantes e católicas. Conheço a linha messiânica. Conheço o budismo. Conheço o espiritismo. Conheço o gnosticismo. Conheço o xamanismo. Conheço a umbanda. Nessa última, ocorreu um fato curioso. Foi um dos últimos lugares que fui, principalmente enquanto minha vida estava um caos, de ponta cabeça. Me senti acolhida por um tempo e pensei ter encontrado um lugar para frequentar. Mas essa minha mania de observar e questionar, me encheu de dúvidas. Eu, uma vez, fui elogiada por uma entidade muito forte. Ela disse que eu era linda e que tinha um homem na minha vida que me enxergava. Ela perguntou se eu queria que ela me mostrasse quem era e eu disse que sim. Não vi nada. Talvez, como uma amiga disse, essas coisas não sejam permitidas para qualquer um. No momento em que a entidade falou, eu tive vontade de retrucar, dizendo que o único que me via passando era meu vizinho, que diz ser traficante. Me perguntei internamente se ela estava brincando com a minha cara...

 Sim, eu me considero uma pessoa de fé. Porém também sou realista. Creio que as religiões pregam a mesma filosofia, porém com nomes e doutrinas diferentes. Mas todas são águas que deságuam no mesmo rio. Eu acredito sim que existe um ser maior, que tem um nome em cada religião. Alguns chamam de Deus, outros de Olorum, outros de Nhanderu, outros de Jeová. Mamãe chamava Ele de Papai. Eu costumo conversar com Ele, como converso com os vovôs. Eu sempre fui chamada de simples, no sentido pejorativo da palavra, então não conheço outra forma de falar com Ele, a não ser com minha simplicidade. Às vezes acho que não é suficiente. Fico me perguntando se, caso eu fosse uma pessoa ruim, dessas que têm inveja, que fazem trabalhos, feitiços, simpatias, se eu fosse alguém egoísta, alguém que, para conseguir o que quer, não se importa com nada nem ninguém, as coisas para mim seria diferentes. Mas eu tenho sangue indígena nas minhas veias, na minha ancestralidade...não consigo ser algo que vai contra meus princípios. Eu converso com as árvores e as borboletas. Eu olho nos olhos dos gatos e cachorros e pergunto se eles estão bem. Eu olho o céu e as raízes. Eu gosto de chás e banhos de ervas. Quando alguém me fere, tento entender o porquê. Eu me ajoelho quando não tenho mais forças ou armas para lutar. Algumas vezes pensei que Deus havia se esquecido de mim. Porém me dei conta de que eu sou um grão de areia e Ele tem problemas maiores para resolver. Mas seria legal se, de vez em quando, Ele reparasse nesse pingo de tinta numa tela gigantesca e quisesse olhar para mim, para os meus pedidos simples, mas que eu mesma não tenho armas para atender.

 Perto de onde nós estamos morando tem um lugar, uma espécie de barranco, com algumas árvores (sempre tem que ter ao menos uma árvore...), ao redor. Meu filho e eu apelidamos o local de canto dos desejos, pois num momento de muita tristeza, fizemos nossos pedidos e sopramos, cada um, um dente de leão, pedindo que os nossos pedidos fossem atendidos. Os pedidos do meu filho foram atendidos. Os meus ainda não. Meu filho disse que meus desejos serão realizados no dia 09/12/2026. Eu fiquei desanimada com a demora, mas disse que vou confiar na palavra dele, já que crianças, pelo jeito, tem uma afinidade maior com Nhanderu. Espero conseguir aguentar a vida até lá. 

 Esses dias, numa dessas "mensagens que o universo manda", disseram que eu era muito amada não somente no mundo físico, mas no mundo espiritual também. Que eu tinha muitos seres no plano espiritual olhando por mim. E olha, no mesmo local em que fui elogiada por uma moça, me disseram que eu tinha vários caboclos que me protegiam, e que eram tão grandes e fortes que pareciam até Exus. Pensei, com carinho, nos meus ancestrais indígenas, que, uma vez, me pediram para eu trabalhar mais com as minhas mãos. Não foi a primeira vez que me disseram que esses caboclos me acompanham. Eu sempre tive um carinho especial por algumas, do que chamam na umbanda, entidades, mesmo antes de saber seus nomes. Quando converso com o Papai, sei que, talvez, eles estejam ouvindo e torcem por mim. Sei que muitos torcem para que dê tudo certo pra mim. Eu torço também. 




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 "O inverno sempre foi rigoroso para você." Paul Gauguin para Van Gogh


  Há dias em que a alma pesa mais e, nesses últimos dias, minha alma acumulou kilos que ficaram difíceis de suportar. Ao abrir os olhos pela manhã, peço ajuda aos céus para que eu consiga atravessar mais um dia. 

 Meu filho me disse que no meio da palavra "Deus", está a palavra "Eu", então significa que Deus mora dentro de nós. A primeira vez que ele me disse isso fiquei sem palavras. Na segunda vez, perguntei se alguém falou aquilo pra ele e respondeu em negativa. Na terceira vez, perguntei onde ele ouviu aquilo e ele não soube responder. Fiquei impressionada com a reflexão dele, que só tem 6 anos. Seguindo sua linha de pensamento, eu sou a única responsável por me dar forças para enfrentar a vida diária. Não sei até que ponto isso é suficiente.

 Hoje, por um momento, minha alma pesou um pouco mais. Foi bem num momento em que olhei o céu por entre as copas das árvores e senti uma brisa bater em minha pele. Respirei fundo e me lembrei das tardes em que senti a mesma sensação, porém com tons em cores um pouco mais vívidas. Na tarde de hoje os tons eram cinzas. Sentei -me aos pés da árvore que fica em frente de onde, hoje, é minha morada e onde sempre dorme a cachorrinha que me escolheu como amiga. Fiquei bons minutos parada, olhando o céu, as árvores e vendo a vida acontecer: crianças brincando na praça, adultos bebendo cerveja, meus vizinhos rindo com os amigos. Senti o vento, baixei a cabeça e meus olhos, involuntariamente, marejaram. 

 Marejar. Se encher de água salgada. Mar. 

 Tem sido um inverno rigoroso para mim também...