Gatos gostam de presentear seus humanos com coisas que outros gatos gostariam de receber. Uma vez uma gata que eu cuidava me trouxe um passarinho de presente. Fiquei espantada ao perceber que o pequeno pardal ainda estava vivo. Peguei o presente e o levei para longe da gata, onde pude limpar seus ferimentos e fazer um curativo. A partir daí, cuidei do passarinho. Meu filho me perguntava todos os dias se o passarinho já estava bom e se poderia brincar com ele. O passarinho estava, aos poucos, se animando, chegando até a me bicar quando eu dava comida para ele. Eu o deixava num cômodo da casa onde a gata não tinha acesso. Um dia, porém, a gata conseguiu abrir a porta. Quando me dei conta, fui até o cômodo e encontrei o pardal caído. O peguei nas mãos e fiquei alguns instantes olhando para ele. Senti quando ele parou de respirar. Fiquei, ainda, certo tempo olhando pra ele e uma lágrima minha caiu em suas penas. Peguei um pedaço de tecido com estampa de flores, fui até o pequeno jardim que eu tinha e colhi algumas flores pequenas e folhas de hortelã e manjericão. Coloquei as flores e folhas no seu peito e fechei suas asas, para então envolve - lo com o tecido. Lembrei de um trecho do livro A Cabana, onde é feito algo similar. Nos dias que se seguiram, meu filho não notou a ausência do pardal e, quando finalmente perguntou, eu lhe disse que o passarinho tinha ido encontrar os pais dele.
Desde a infância, os animais de estimação que tínhamos, quando chegava a hora, morriam perto de mim ou nos meus braços. Eu nunca quis entender o porquê, mas acredito que eles queiram partir perto de quem os faziam sentir seguros. Isso me faz sentir grata, mas ao mesmo tempo, dolorida. Sinto dor porque eu sempre penso que poderia ter feito mais. Porém na teoria tudo acontece, na prática é diferente.
Havia um cachorro que, como costumam falar, se adotou. Um dia eu abri a porta de casa e ele entrou. E ficou. No começo, eu e ele não nos dávamos bem. Até que um dia ele machucou a pata e a pessoa com quem eu morava disse que o "jogaria fora". Eu o defendi e, desde então, passei a ser cuidadora dele. Eu gostaria de compreender mais sobre essas relações de humanos e animais. Acho curioso o fato de alguns animais terem conexão com seus donos, quase como se pudessem falar e compreender. Tive um gato assim. Tenho muita saudade dele. A questão aqui é que, da mesma forma que eu protegia e cuidava daquele cachorro, ele também me defendia. Diversas vezes em que o ex tentou me agredir, o Zeus avançou nele. O ex possui as marcas das mordidas até hoje.
No fatídico dia em que tudo aconteceu, aquele homem deixou o Zeus na varanda e fechou a porta. Tenho certeza de que foi planejado, pois ele sabia que o Zeus me protegeria. Quando eu consegui ir embora, olhei para a varanda...o Zeus se aproximou do parapeito e olhou pra mim. Olhei pra ele com os olhos cheios de lágrimas, entrei na viatura e fui embora. Dias depois eu o via quando precisava voltar até a casa, para retirar coisas minhas e do meu filho. Sempre acariciava ele, colocava comida, água e trocava o pote de água dele de lugar, para que não ficasse no Sol. Depois, quando a casa foi desocupada, ele foi levado para a casa do avô do meu filho, onde reencontrou um amigo cão dele.
Ontem, minha amiga veio até a minha casa e, durante a conversa, sentimos uma brisa e o, popularmente chamado, cheiro de cachorro. Após minha amiga ir embora, recebi uma ligação do avô do meu filho dizendo que o Zeus havia falecido. O horário: aquele em que senti a brisa. Minha amiga disse que o Zeus veio se despedir de mim, pois eu fui muito especial para ele. Quero acreditar nisso, assim como quero acreditar que realmente existe um "céu", inclusive para os animais. Assim como quero ser crente de tantas outras coisas.
Com os olhos molhados, olhei para o céu e não disse nada...mas senti tudo.

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