quinta-feira, 30 de julho de 2026

 Refletia, esses dias, sobre mentiras. Mentiras, para mim, sempre foram sinal de alerta em alguém. Todos os seres humanos mentem, mas mentir por algo desnecessário, uma mentira ridícula ou mentir somente e sabendo que irá ferir alguém, cruza a linha do desvio de caráter. 

 Eu refleti sobre as minhas próprias mentiras. Nesses últimos capítulos da minha vida, menti. Cerca de duas ou três pessoas souberam detalhes do que me aconteceu no último ano. Mas essas pessoas não sabem de tudo... E eu menti. Menti com as minhas gargalhadas altas quando, na verdade, meu desejo era chorar com o fôlego de um recém nascido. Menti todas as vezes em que disse "está tudo bem", "eu entendo", "eu não ligo", "eu não me importo", "deixa pra lá".

 Me peguei pensando que eu, que condeno tanto mentiras inúteis, sinto o gosto da hipocrisia. Creio que sempre fui uma mentirosa. Na infância, eu mentia dizendo que as manchas na calcinha eram porque estava de saia enquanto brincava com as plantas. Na pré adolescência, mentia dizendo que queria tomar banho de chuva quando, na verdade, queria me molhar até ficar doente. Na adolescência, mentia dizendo que só havia bebido muito, quando na verdade, havia encontrado alguns comprimidos com validade ultrapassada. Na fase adulta, no que era pra ser um casamento, aprimorei minha arte de mentir. Mentia dizendo que havia dormido bem, quando na verdade dormi ao relento. Mentia dizendo que não estava com fome quando, na verdade, estava poupando comida pois não sabia quando ia conseguir comprar de novo. Depois, separada, menti várias vezes, principalmente para o meu filho. Mentia dizendo que faríamos um passeio, quando na verdade estava traçando rotas e procurando um lugar que pudéssemos morar. Mentia dizendo à ele que estava tudo bem, quando na verdade eu estava dilacerada por ele ter contado coisas cruéis. Era costume mentir dizendo que havia dormido um pouco, quando na verdade não havia dormido nada.  Mentia dizendo que havia comido, quando na verdade eu não senti vontade de comer e a comida me dava até ânsia. Acho que uma das poucas verdades é o fato de eu não me arrepender de ter ido embora. Mas, por vezes, fico pensando que, talvez, teria sido melhor eu ter partido naquele fatídico dia. A vida de algumas pessoas seria mais simples e menos confusa se eu não estivesse aqui. 

 Uma vez me disseram que eu tenho o dom de fazer as pessoas deixarem de gostar de mim. Amarga verdade que eu engoli, a alguns meses atrás. Eu tenho uma colega que diz que tem muito orgulho de mim e da minha trajetória. Acho que ela deixará de gostar de mim quando eu for ao mar.




quarta-feira, 29 de julho de 2026

  Hoje, à caminho da escola, eu e meu filho nos deparamos com dois gatos em nossa caminhada. Como não era de se esperar que fosse diferente, paramos para acariar e conversar com os bichanos. Meu filho, assim como sempre, pediu para adotar o gatinho. Eu disse que mais pra frente a gente adota um gatinho e que o tio Lucas já deve ter um gatinho separado para o Minato em sua casa. Esse "mais pra frente" se tornou a minha versão do "na volta a gente compra". 

 Gatos sempre me chamaram a atenção, o interesse e a curiosidade. Admiro a forma que eles vivem a vida e, certa vez, escutei um episódio de um podcast que falava exatamente sobre isso. Já li muitos livros que falam sobre coisas que podemos aprender com os gatos e etc. Há um comentário em meio aos protetores de animais que diz que as mulheres são inteligentes e misteriosas como os gatos e os homens tapados e previsíveis como os cachorros. Não concordo 100% com essa afirmação. Já vi muitos homens enigmáticos e muitas mulheres carentes e tapadas. Engraçado que a maioria dos livros que li sobre o assunto, deságua naquela balela do amor próprio. Amor próprio virou a nova "autoajuda" que eu sempre menosprezei. Não, não estou dizendo que você não deva se amar acima de tudo, muito pelo contrário. Nós temos que ser mais importantes. Não podemos aceitar qualquer coisa nem algo que nos fere os princípios. Não podemos nos humilhar pedindo algo que deveria ser oferecido sem cerimônia. Mas, ao pregar e enfiar esse assunto de amor próprio garganta abaixo dos seres humanos, sem notar, estão criando robôs. Aqueles que não tem capacidade para entender a essência do assunto, distorcem - no. Estão fazendo com que as pessoas se tranquem e deixem de viver algo que valeria a pena viver. Estão fazendo as pessoas acreditarem que as pessoas são substituíveis e não, não são. O mundo tem bilhões de pessoas, mas uma nunca é igual a outra. Às vezes se perde a chance de viver algo legal, simplesmente por um detalhe ou outro da pessoa que desagrada... e daí simplesmente busca uma "pessoa melhor" depois.  Compararam as pessoas a gatos, mas se esqueceram que nós, humanos, não somos felinos. Precisamos da nossa individualidade, mas também precisamos conviver em sociedade. Eu conversava com uma amiga sobre isso outro dia... Ela está numa fase em que sente muito sozinha e eu a inspirei a, como eu, fazer coisas sozinha mesmo! A gostar da própria companhia, gostar de passar tempo consigo mesma. Ela disse que precisa aprender comigo essa arte da solitude. Dei um sorriso de canto de boca. A solitude do amor próprio te faz entender que você não precisa de ninguém para ser feliz e, na verdade, é errado depositar sua felicidade em outra pessoa. Mas também não te livra dos pormenores da solidão. Sim, eu me amo e me coloco acima de tudo e tenho princípios que são inegociáveis. Sim, se não tem ninguém pra me ajudar, vou ter que dar um jeito de resolver tudo sozinha mesmo. E tudo bem. Isso é ser um adulto funcional. Sim, quando algo acaba, fico sentida, mas minha vida não pode parar por conta de cada fim. Não, eu não quero ninguém pra me salvar, afinal de contas, isso é muito raro de acontecer.

 Mas sim, eu também queria ser especial pra alguém. Queria que alguém gostasse de mim apesar dos meus problemas e questões. Queria ter um abraço pra repousar quando meu mundo pesasse... assim como minha alma pesa por esses dias. Mas, como me disseram uma vez, pessoas como eu ficarão sozinhas. E eu tenho que me acostumar. Talvez esteja na hora de eu ser vilã, não me importar com os sentimentos dos outros e me fechar. Usar a balela do amor próprio como desculpa para encobrir uma vontade de sentir que contrasta com o medo de mostrar. 

 Morrerei sozinha, assim como todo mundo. Talvez eu realmente não cause atração nem cative ninguém. Eu sei. Dane-se, eu não ligo! Eu sou muito melhor que esses projetos de homem que não sabem tratar bem uma mulher! (Barreira do amor próprio equipada com sucesso) 




terça-feira, 28 de julho de 2026

  "Palavras são importantes também. Elas podem salvar ou afundar alguém." 

 Foi isso que eu disse em uma conversa recente, como que em uma afirmação inconsciente para mim mesma. As palavras, o ato de falar é importante. Deixar o outro saber pode o salvar. Todos os dias olho no espelho e me encho de palavras bonitas, de ânimo, de força e exaltação. Eu digo a mim mesma as palavras que nunca escutei da boca de ninguém. Nós humanos, porém, somos seres inconstantes. Vivemos a vida no dia e um maremoto de sensações num fim de tarde pode derrubar toda a afirmação positiva feita pela manhã. Lembrei de um amigo que foi muito especial na minha adolescência, cujas palavras poderiam tê-lo salvo. Ele se afundou na represa, achando que não era especial, que não era amado. Não sabia, ele, que a menina que ele tanto gostava, gostava dele da mesma forma. Dias depois do enterro, ela disse que se arrependia de não ter dito à ele o que realmente sentia. Eu nunca li a carta de suicídio dele mas, pelo tom das conversas, acredito que ele citava o sentimento que nutria à ela na carta. 

 No primeiro mês do ano eu escrevi uma carta. Lembrei-me dessa e todas as outras cartas que escrevi quando assisti, recentemente, um filme libanês que queria muito ver a algum tempo. Nessa minha carta, eu abri o coração no que eu achava que seria a última vez. Senti meu peito aliviar quando escrevi e as águas salgadas escorrerem quando terminei. Eu dediquei a poucas pessoas, até porque, meu círculo social que já era pequeno, ficou minúsculo depois de tudo que aconteceu. Na carta, haviam três pessoas em específico que eu deixei claro que gostaria que recebessem o papel. Sorri por um segundo, pois me senti como a protagonista de Os treze porquês, mas sem um amigo para fazer o trabalho póstumo. Ao pensar em amigo, meu sorriso se desfez. 

 Comentei com meu filho que, desde criança, a mamãe tinha mania de escrever cartinhas e não enviar. Ele riu com aquele riso inocente de criança, que não compreende ainda as entrelinhas da vida. Falei pra ele que, uma vez, a mamãe ia falar sobre uma dessas cartas para alguém, mas daí mudou de ideia. E realmente, eu mudei de ideia. Tenho mudado muito de ideia nos últimos tempos. Pra que falar algo assim? Pra que falar se, no fim das contas, minha existência não faz diferença para tal?

 Falar é importante. Mas é mais importante ainda saber quando falar. Às vezes tudo que uma pessoa precisa para ser salva é que você olhe nos olhos dela e fale... Novamente, isso pode construir ou destruir alguém. De todas as vezes em que me falaram, a porcentagem maior foi em momentos errados... palavras erradas... ações erradas. Das vezes em que me falaram, em quase todas eu quebrei. Eu enxergo as ações, eu enxergo os cuidados , eu enxergo os fatos, eu enxergo os esforços de quem me quer bem. Mas ouvir as palavras verdadeiras no momento certo, ao menos de vez em quando, seria bom.. 

 Me sinto como meu amigo... Tarde demais para você falar.




segunda-feira, 27 de julho de 2026

    A primeira vez que eu vi o mar foi na fase adulta, eu tinha 22 anos e só consegui molhar os pés. Antes disso, eu me perguntava qual seria o cheiro da praia, como seria a sensação de areia nos pés, qual seria a sensação de entrar no mar. Engraçado, mesmo nunca tendo entrado no mar, eu não tinha medo. Diferentemente das piscinas, por exemplo, as quais eu mantinha receio. 

 Depois de conhecer a praia, voltei algumas poucas vezes, e sempre é algo inexplicável... quase uma sensação de pertencimento. Certa vez, em uma conversa específica, disse que gostaria de me sentar na beira da areia cantando e ouvindo as histórias de marinheiros, e então fiz um gesto e disse que entregava meu coração ao mar. Será, então, que o mar me acolherá? 




domingo, 26 de julho de 2026

  Uns dias atrás refletia com uma colega de freela sobre quebras e responsabilidade afetiva. Eu dizia a ela que essa responsabilidade é primordial em situações em que realmente existe vínculo, como nas relações familiares, por exemplo. Ela defendia que vai mais além, que todos somos responsáveis pelos laços que criamos e temos que cuidar como tal. Brinquei com ela que, provavelmente, ela se inspirou no livro de Antoine ao dizer isso. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Ela disse que, a partir do momento que você demonstra para alguém que se importa com essa pessoa, você deve ter responsabilidade afetiva com ela. "Mas a vida acontece, a gente passa por tantas coisas no dia a dia, a vida adulta é tão corrida e conturbada... Às vezes não dá nem pra parar e notar as pessoas, mesmo as que a gente tem apreço." , eu disse. "Não tô falando de mandar mensagem todo dia, toda hora! Tô falando de se importar. De observar, de lembrar da pessoa, do que a faz feliz, do que a faz triste, lembrar de alguma coisa e comentar, fazer um carinho na alma dela!", ela me respondeu. Depois de algum tempo de conversa, ela desabafou que, quando ela estudava, tinha um amigo que todos amavam, que estava sempre sorrindo, mas que ninguém sabia muita coisa sobre a vida na casa dele. Ela disse que ele cometeu suicídio e, só depois disso, os colegas souberam sobre as surras, sobre o alcoolismo do pai, sobre a paixão platônica na escola, sobre a vontade de ser chamado para jogar ps1 na casa dos colegas... Baixei os olhos e ficamos em silêncio. Não havia nada a dizer. Me peguei pensando em que momento a onda da vida dele se quebrou. Qual foi o momento, a ação, o estopim que o fez quebrar.

 Passei o resto da manhã pensando em cada palavra desse diálogo. Se importar. Notar. Ter tato. Zelar. Lembrar... Ter cuidado para não ser você a quebrar alguém, como as ondas que quebram antes de chegar na areia.




sábado, 25 de julho de 2026

 Outro dia tive uma conversa sobre arrependimentos e partidas, e foi uma daquelas conversas em que você não interage o bastante, simplesmente porque a "química" da conversa não bate. Aquelas conversas em que você ouve por educação. Mas essa conversa me rendeu reflexões, depois, com o silêncio da minha alma. Me peguei pensando que, na verdade, eu sou sempre aquela que outros conversam e ouvem por educação. E tudo bem, ninguém é obrigado a gostar da companhia ou não. A mágica da amizade ou do coleguismo simplesmente acontece. Eu comentei com essa pessoa que me arrependia de uma coisa em específico... mas, ao chegar em casa, mudei de ideia. Não, não me arrependo não. Ao menos não da coisa que citei. Ao menos não terei o peso do "e se", no momento em que eu partir. Mas sim, carregarei muitos outros pesos de outros arrependimentos, talvez até alguns que não fui eu a me incumbir. A sonata nunca tocada, a oportunidade nunca agarrada, a batalha nunca ganha, a carta nunca enviada... Tenho sentido minha alma pesada e, pensar nesses arrependimentos, acrescentou alguns kilos de dores de coisas que jamais serei, sonhos que não realizarei e desejos cujo alcance, não merecerei. Eu estou cansada...minha alma pesa...e eu queria poder desistir. 



quinta-feira, 23 de julho de 2026

 Eu sempre disse que existem pessoas que vem à Terra somente para fazer peso. Esse é o caso dos narcisistas, por exemplo. Eles são especialistas em tocar nas suas feridas mais doloridas, pois sabem exatamente onde ficam e quais são. O narcisista que conheci dizia que era o único que me aguentava, dizia que homem gosta de mulher de verdade, não de baixinha, gorda e feia como eu, dizia que eu afastava as pessoas e causava até repulsa nelas. 
 O grande problema é que eles te estudam (ou acham que estudam) e sabem o que vai te ferir. Eles observam as situações para te fazer crer no que eles dizem. A questão é quando eles tem certa razão...
 Uma vez, em um aniversário, eu ia pedir um beijo de presente para alguém. Passou a data e eu fiquei sem jeito de pedir...eu, que alguns chamam de corajosa, fiquei com medo do não. Dias depois, ficou claro que seria uma negativa. Depois me falaram que ele disse que me achava cheia de frescura e eu pensei em como alguém pode chegar a essa conclusão sobre outro, apenas com base na suposição. E então fez sentido o que meu ex dizia... acho que causei repulsa nele...
 Assim também, acho que crio a repulsa de colegas e amigos...por um tempo tudo é feliz, logo, tudo some. Não é culpa de ninguém, é culpa minha. Não tem problema... eu, que durante tanto tempo tive medo de não fazer diferença pra nada, tive que aprender a ser só. Tudo bem. Mas acho que esse é um daqueles "tudo bem" que se diz com sensação de anestesia. O que se há de fazer? Tem pessoas que são assim mesmo, estragadas, como eu.
 Daí, outro dia, abri um diário antigo e tinha uma daquelas listas que adolescente faz com "coisas a serem conquistadas no ano seguinte". Entre os tópicos da lista, estava lá "tocar o coração de alguém". Suspirei e baixei os olhos... Mais um tópico para a lista de fracassos. 



quarta-feira, 22 de julho de 2026

 Queria poder me deitar assim como fez a raposa daquela linda e tocante história infantil. Quem sabe, acordar na beira de um lago, onde poderia, talvez, encontrar aquela e aqueles que tanto me fazem falta. Quem sabe, teria um encontro com os seres de luz, que tantas pessoas que tiveram eqm dizem ver, e ter uma conversa sobre o porquê das coisas terem sido como foram. Quem sabe, acordaria num vale repleto de seres mágicos que me olhariam sem julgamentos, onde eu poderia, assim como entreguei meu coração ao mar, entregar-me num salto, às asas de milhares de borboletas. Invejo os seres que tem asas e podem simplesmente voar para longe. Queria saber voar. Queria poder saber sobre os mistérios e segredos escondidos que poderiam tornar minha existência um pouco diferente.




terça-feira, 21 de julho de 2026

 "Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira?"

Fiódor Dostoiévski