Uns dias atrás refletia com uma colega de freela sobre quebras e responsabilidade afetiva. Eu dizia a ela que essa responsabilidade é primordial em situações em que realmente existe vínculo, como nas relações familiares, por exemplo. Ela defendia que vai mais além, que todos somos responsáveis pelos laços que criamos e temos que cuidar como tal. Brinquei com ela que, provavelmente, ela se inspirou no livro de Antoine ao dizer isso. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Ela disse que, a partir do momento que você demonstra para alguém que se importa com essa pessoa, você deve ter responsabilidade afetiva com ela. "Mas a vida acontece, a gente passa por tantas coisas no dia a dia, a vida adulta é tão corrida e conturbada... Às vezes não dá nem pra parar e notar as pessoas, mesmo as que a gente tem apreço." , eu disse. "Não tô falando de mandar mensagem todo dia, toda hora! Tô falando de se importar. De observar, de lembrar da pessoa, do que a faz feliz, do que a faz triste, lembrar de alguma coisa e comentar, fazer um carinho na alma dela!", ela me respondeu. Depois de algum tempo de conversa, ela desabafou que, quando ela estudava, tinha um amigo que todos amavam, que estava sempre sorrindo, mas que ninguém sabia muita coisa sobre a vida na casa dele. Ela disse que ele cometeu suicídio e, só depois disso, os colegas souberam sobre as surras, sobre o alcoolismo do pai, sobre a paixão platônica na escola, sobre a vontade de ser chamado para jogar ps1 na casa dos colegas... Baixei os olhos e ficamos em silêncio. Não havia nada a dizer. Me peguei pensando em que momento a onda da vida dele se quebrou. Qual foi o momento, a ação, o estopim que o fez quebrar.
Passei o resto da manhã pensando em cada palavra desse diálogo. Se importar. Notar. Ter tato. Zelar. Lembrar... Ter cuidado para não ser você a quebrar alguém, como as ondas que quebram antes de chegar na areia.

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