Hoje é o segundo domingo de agosto. No Brasil, comemora-se o dia dos pais. E, hoje, eu acordei com uma tristeza diferente no peito.
Todos os anos eu dedico esse dia à minha mãe. Entretanto, tenho pensado no meu pai e em sua vida, desde que descobri seu falecimento e desde que fui obrigada a refletir sobre coisas que parecem simples na vida, mas que, na prática, são de extrema dificuldade. O ato de perdoar, por exemplo. A maioria dos textos e conversas que vejo sobre o perdão são pura falácia. Mas isso, creio que seja tema para outro texto.
Meu pai, certa vez, disse que estava pagando um preço alto por ter colocado no mundo uma família que não deveria existir. Achei até engraçado quando lembrei, hoje, que ouvi a mesma frase saindo da boca do meu ex marido. Em incontáveis momentos da minha vida me perguntei o porquê do meu viver, sendo que em outras incontáveis ocasiões, eu deveria ter morrido. Perguntava, também, o que teria acontecido se a minha mãe tivesse ido embora conosco numa certa noite, se certas palavras não houvessem sido ditas, se certas atitudes não tivessem sido tomadas. Me perguntava sempre o que teria acontecido se meu pai tivesse conseguido fazer aquilo que ele sempre tentava fazer. Me perguntava se, caso nós todos tivéssemos morrido em um dos muitos incêndios que ele causou, nós teríamos reencarnado numa vida melhor e mais justa. De uma semana pra cá, especificamente, venho me perguntando o que teria acontecido se minha mãe não tivesse comido a maçã que ele à deu.
Hoje, conhecendo os pormenores das histórias de alguns de meus ancestrais, consigo entender algumas situações. Porém, entender não é o mesmo que aceitar e esquecer. Hoje eu sou mãe e conto ao meu filho as histórias de nossa família. As histórias que meu filho ouve sobre meu pai contam sobre como ele era forte e dotado de esperteza. Contam sobre como ele era criativo, a ponto de fazer instrumentos de artes marciais para ensinar eu e meu irmão a lutar. Contam sobre como ele era um excelente músico e compositor, a ponto de aprender sozinho vários instrumentos musicais e ser convidado a gravar um disco, que só não existe porque não haviam condições financeiras para tal. Eu conto para meu filho que o avô dele nos contava histórias de terror à luz de velas e eram tantas histórias que acho que não escutamos todas.
Meu filho, na semana passada, me perguntou se o pai dele era um bom pai. Essa criança, que eu gerei, me surpreende a cada dia com sua maturidade. Eu exitei em responder e, diante da insistência, disse que era meu filho que tinha que pensar sobre a resposta. Ele ficou em silêncio e eu disse que o pai dele faz o que pode e é o melhor que consegue ser e, quando crescesse, ele iria entender melhor as coisas.
Ao contrário do que o pai dele diz, eu quis muito o meu filho e o amei desde quando o senti na minha barriga, mesmo sem saber que estava grávida. É engraçado falar, mas eu sabia que ele estava ali. Mas sabe, eu também queria uma situação diferente durante a minha gravidez. Eu queria alguém que beijasse a minha barriga, que conversasse com o meu bebê, que me abraçasse e entendesse que, além da depressão, meus hormônios estavam um caos. Queria alguém que me apoiasse, tocasse no meu rosto quando minhas lágrimas escorressem e me dissesse que ia ficar tudo bem. Queria alguém que não me mandasse parar de cantar pra barriga. Queria alguém que, apesar das dificuldades financeiras, lutasse comigo para garantir ao menos as coisas básicas. Mas a vida aconteceu como aconteceu. Esperando um bebê, tive que conviver com a insegurança de não saber se a pessoa que deveria me apoiar chegaria entorpecida. Lembro de uma vez em que me revoltei de tal forma, ao ver a comida escassa e a sujeira branca no nariz dele, que bati minha cabeça na parede. A pintura da parede era em grafiato e minha testa ficou marcada por alguns dias. Na escola em que trabalhava, eu disse que cocei demais a testa. Ao invés de, ao menos, se desculpar e admitir o que fez, ele disse que não fez nada e me chamou de doente. A vida era muito difícil. Ficou um pouco mais na gestação. Depois do parto e da alta, ao chegar em casa, tive que fazer faxina, pois a casa estava numa situação ruim para acomodar um recém nascido. Meus pontos doeram por mais tempo que o normal. Uma vez, com meu filho no colo, houve uma briga, dessas que chamam de briga feia. Não sobraram coisas de vidro inteiras na casa, ficaram todas em pedaços no chão. Eu não limpei, pois estava agarrada ao meu bebê, com medo de que ele o pegasse de mim.
Eu queria que muita coisa na minha vida fosse diferente. Essa parte, também. Queria um pai pro meu filho que também fosse companheiro para a mãe. Como em muitas situações na minha existência, não saiu como planejado.
Ainda bem que existe o "depois".
















