Refletia, esses dias, sobre mentiras. Mentiras, para mim, sempre foram sinal de alerta em alguém. Todos os seres humanos mentem, mas mentir por algo desnecessário, uma mentira ridícula ou mentir somente e sabendo que irá ferir alguém, cruza a linha do desvio de caráter.
Eu refleti sobre as minhas próprias mentiras. Nesses últimos capítulos da minha vida, menti. Cerca de duas ou três pessoas souberam detalhes do que me aconteceu no último ano. Mas essas pessoas não sabem de tudo... E eu menti. Menti com as minhas gargalhadas altas quando, na verdade, meu desejo era chorar com o fôlego de um recém nascido. Menti todas as vezes em que disse "está tudo bem", "eu entendo", "eu não ligo", "eu não me importo", "deixa pra lá".
Me peguei pensando que eu, que condeno tanto mentiras inúteis, sinto o gosto da hipocrisia. Creio que sempre fui uma mentirosa. Na infância, eu mentia dizendo que as manchas na calcinha eram porque estava de saia enquanto brincava com as plantas. Na pré adolescência, mentia dizendo que queria tomar banho de chuva quando, na verdade, queria me molhar até ficar doente. Na adolescência, mentia dizendo que só havia bebido muito, quando na verdade, havia encontrado alguns comprimidos com validade ultrapassada. Na fase adulta, no que era pra ser um casamento, aprimorei minha arte de mentir. Mentia dizendo que havia dormido bem, quando na verdade dormi ao relento. Mentia dizendo que não estava com fome quando, na verdade, estava poupando comida pois não sabia quando ia conseguir comprar de novo. Depois, separada, menti várias vezes, principalmente para o meu filho. Mentia dizendo que faríamos um passeio, quando na verdade estava traçando rotas e procurando um lugar que pudéssemos morar. Mentia dizendo à ele que estava tudo bem, quando na verdade eu estava dilacerada por ele ter contado coisas cruéis. Era costume mentir dizendo que havia dormido um pouco, quando na verdade não havia dormido nada. Mentia dizendo que havia comido, quando na verdade eu não senti vontade de comer e a comida me dava até ânsia. Acho que uma das poucas verdades é o fato de eu não me arrepender de ter ido embora. Mas, por vezes, fico pensando que, talvez, teria sido melhor eu ter partido naquele fatídico dia. A vida de algumas pessoas seria mais simples e menos confusa se eu não estivesse aqui.
Uma vez me disseram que eu tenho o dom de fazer as pessoas deixarem de gostar de mim. Amarga verdade que eu engoli, a alguns meses atrás. Eu tenho uma colega que diz que tem muito orgulho de mim e da minha trajetória. Acho que ela deixará de gostar de mim quando eu for ao mar.














