"Quando se planta uma semente, você não vê as raízes se formando e se conectando ao solo."
O meu pai, apesar de péssimo com outros seres humanos, era bom com as plantas. Tinha a "mão verde", como se diz na sabedoria popular. Uma vez eu estava brincando sozinha com uma bola no quintal e, por acidente, a bola bateu num vaso de gesso, que foi ao chão e se partiu. Eu tentei "consertar", com a forma que as crianças consertam as coisas e, obviamente, não funcionou. Meu pai percebeu. Ele ficou tão bravo por ter quebrado o vaso que parecia até que eu tinha quebrado a perna de alguém...
Meu pai tinha muitas plantas. Atualmente, sei que isso foi herdado dele pela minha avó paterna. Hoje, olhando como uma adulta, talvez eu o classificaria como um acumulador de plantas... Acho que o desejo dele era de ter um jardim porém, infelizmente, a realidade de quem mora de aluguel dificilmente permite isso.
Dentre as tantas plantas que meu pai cultivava, uma ele disse que era minha. Ele disse que era um Benjamin e, anos depois, eu descobri que o nome correto daquela, até então pequena, árvore é Figueira Benjamina. Um dia, creio que para eliminar alguns vasos, antes de mais uma mudança, meu pai colocou algumas das plantas em sua Variant azul calcinha, incluindo o meu Benjamin, e me levou junto até um local próximo de onde morávamos, o Viaduto Itinguçu. Nesse viaduto, perto de uma de suas pontas, havia um espaço onde, na época, só havia terra. Meu pai estacionou o carro e descemos. Ali, naquele espaço sem vida, distribuímos alguns dos únicos seres viventes que meu pai respeitava e tinha tanto carinho e cuidado. Plantei minha primeira árvore, o meu Benjamin, naquele lugar.
Hoje, durante um momento específico numa oficina de escrita científica, refleti, mais uma vez, sobre a sabedoria das árvores. Os indígenas, como a minha bisavó, acreditam que as árvores são espíritos vivos, donos de uma sabedoria que transcende gerações. Muitos pajés relatam conversarem com os espíritos habitantes nas árvores, pedindo conselhos, ajudas e tudo o mais. E é engraçado, em muitos momentos da minha vida eu fiz comparações de certas situações com as árvores, não pelo cunho espiritual, mas pela significância de suas vidas. A forma silenciosa que elas germinam, criam raízes, crescem e florescem. Começam tão frágeis e terminam tão majestosas. E assim são as coisas que importam na vida, não é? Mesmo que não sejam majestosas, mas desde que tenham raízes fortes e aguentem as tempestades e as mudanças do viver.
Tem uma frase que eu vi um dia e que eu gosto muito, que diz: "O amor é como uma árvore, que floresce onde seria mais fácil desistir." O amor de meu pai por suas plantas, floresceu num canteiro de um viaduto. O amor da mamãe floresceu em seus filhos e em todos que ela tocou. Onde o meu sentir florescerá? Será que algum dia, as sementes do meu viver florescerão em lugares improváveis?

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