Houve uma época em que eu tocava bem. Eu estudava muito, pois meus sonhos e objetivos para sair da realidade em que eu vivia, dependiam desse ato, o de tocar bem. Nessa época, os testes para ingressar em conservatórios e orquestras remuneradas eram um pouco diferentes. Hoje está tudo um pouco mais fácil, com vídeo aulas e partituras gratuitas na internet. Naquela época, estudantes de música como eu era, tinham que ir à biblioteca e fazer cópias das partituras, que deveriam ser estudadas com um professor presencialmente, para se ter ao menos o mínimo de noção de como tocar. Você se preparava praticamente um ano inteiro para fazer as provas em fevereiro e março...e, com sorte, ser classificado.
No último ano em que eu prestei tais provas, eu não tive como pagar aulas com um professor particular. Eu tinha um amigo que já era formado em música e tocava violino numa banda e, esporadicamente, ele me dava algumas dicas...mas naquele ano nós havíamos perdido o contato. Mas eu continuava estudando...quase até a exaustão. A "marca de violinista" em meu pescoço ficou roxa, devido as horas de estudo.
Chegou o dia de uma das provas, a primeira de cinco testes que eu faria: dois para conservatórios e três para tentar ingressar em orquestras. Nessa altura do campeonato, eu já sabia como funcionava a "panelinha" da música clássica e a podridão por detrás do meio erudito. Eu entrei na sala de audições quando chamaram meu número. Me apresentei, falei um pouco sobre a trajetória até aquele momento e pediram para eu tocar a peça que havia preparado. Após os primeiros compassos, um funcionário abriu a porta da sala com um ventilador ligado, derrubando as minhas partituras. Eu fechei os olhos e continuei tocando. A banca examinadora ouviu a música quase até o fim... Quando disseram que eu podia parar, fizeram mais algumas perguntas e disseram que eu podia ir embora. Sem reclamações, sem as caretas de desagrado que eu já conhecia. A esperança me tocou. Eu sabia que havia tocado bem, ainda mais sem as partituras.
O teste seguinte, para outra escola de música, foi similar. Toquei bem, a banca fez anotações e eu fui embora.
No teste da primeira orquestra, eu vi alguns rostos familiares, rostos que erguiam os narizes e olhavam para pessoas como eu com olhares contra plongée. Me senti como num filme do Tarantino. Nesse, eu toquei bem, mas não bem como a banca queria.
Na audição da segunda orquestra, eu encontrei um colega. Uma peça rara entre aqueles seres repletos de arrogância. Ele tocou primeiro e "deu o toque" do que a banca estava esperando. Chegou a minha vez. A banca pediu escalas e arpegios diferentes dos que eu havia estudado. Me esforcei para lembrar os acidentes da escala. Desafinei. Um professor da banca, um homem chamado Ênio, deu risada e fez comentários em voz baixa com os outros integrantes na mesa. Toquei a peça que havia estudado...toquei mal. Mais risadas e uma avalanche de perguntas: quem era meu professor, com quantos anos eu comecei a estudar, quantas horas por dia eu tocava, se meu violino era de fábrica ou de luthier... Disseram que eu podia ir embora e saí sem olhar para trás. Na saída do prédio, encontrei uma colega que queria conversar, mas eu só queria entrar no trem e ir embora.
No teste da terceira orquestra eu não consegui ir. Estava sem o dinheiro da passagem para ir até a USP.
Chegou o dia de ver o resultado. Naquela época a lista com os aprovados não era publicada na internet, você tinha que ir até o local e as listas estavam impressas e coladas na parede, para que vissem. Comecei pelas listas das orquestras. Não passei. Mas eu já sabia que não passaria... A lista da segunda escola de música ficava no mesmo prédio que o das orquestras, mas em outro andar. Meu nome não estava lá. Fiquei triste, mas eu sabia que tinha ido bem na primeira audição, ainda mais tocando sem as partituras. Entrei no metrô e fui até a primeira escola de música para ver as listas. Naquele momento eu estava esperançosa, pra não dizer confiante, de que havia passado. Olhei as listas e procurei meu nome. Olhei três vezes. Não achei. Olhei pela quarta vez. Meu nome não estava lá. Nem como suplente. Se eu pudesse me ver em terceira pessoa, seria como uma cena de filme. Parada em frente ao papel fixado na parede, os olhos fixos e tristes, o braço abaixando sendo acompanhado pela cabeça. Fui ao banheiro e chorei. Quando bateram na porta eu abri e fui embora, tentando controlar o choro por todo o caminho de volta.
Por uma série de motivos, aquela foi minha última chance. Eu não poderia continuar estudando como eu estava, não poderia me dedicar para tentar novamente no ano seguinte. Aquelas audições eram minhas últimas esperanças. E eu não consegui. Como as folhas da partitura que voaram enquanto eu tocava, a última chance que eu tinha se foi sem que eu tivesse conseguido. Foi a última vez em que prestei audições.
Hoje eu toquei a música que toquei na primeira audição daquele dia. Não houveram folhas voando e eu também não fechei os olhos para tocar, pois não me lembro mais das notas, caso me tirem a partitura. Fui inundada por uma sensação que não sei bem como descrever. Eu queria que muitas coisas na minha vida fossem diferentes mas, essa parte, é uma das que eu mais queria que tivesse dado certo. Se o plano que fiz naquela época, com 17 anos, tivesse funcionado, eu teria sido poupada de muitas situações tristes e cruéis... Engraçado que quando um certo alguém me via me dedicando tanto, estudando arduamente, tocando até o pescoço, os dedos e o braço doerem, me criticava e perguntava por que eu queria tanto ser só mais uma no meio de um bando de gente chata. Eu respondia que queria ser só mais uma que venceu, não que fracassou.
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