Meu tio é um daqueles muitos meninos que tiveram que, desde cedo e sempre, segurar o choro. Se tornou um homem adulto com aquelas feridas encobertas pela poeira da vida, tal como os soldados do esquadrão Ghost, de Call of Duty. É mais um dos vários homens de sua geração e das posteriores, que fingem não sentir, por medo de demonstrar fraqueza. Perante uma situação triste, mantém a postura no coletivo para, longe dos olhos alheios, deixar escorrer dos olhos gotas salgadas.
Quando mamãe partiu, tio Orlando pegou um vôo de Sergipe até São Paulo, para enterrá-la. Meu pai estava bêbado demais, desesperado demais e com remorso demais para resolver tais questões. Um dia, vi meu tio sair do banheiro secando os olhos e seu nariz estava vermelho. Nunca o vi chorar, mas não é porque não vemos algo, que não aconteça.
Ontem foi seu aniversário, mas ninguém lhe deu os parabéns...pois no mesmo dia em ele comemora a vida, precisou enterrar seu pai. Ao perguntar para ele como ele estava, ele me respondeu que já vinha se preparando para esse momento. Um ator que gosto muito, Willem Dafoe, disse uma vez: "Meu objetivo é aceitar que estamos morrendo e lidar com isso de maneira positiva" . Creio que meu tio segue essa linha de raciocínio também.
As pequenas idiossincrasias da vida me provocam constantemente... Nessa sequência de sonhos estranhos que venho tendo, sonhei com meu avô e minha mãe e, próximo à eles, estava meu tio. Quem sabe, em breve, eu possa rever meu tio e o que restou da família e ouça histórias de meu avô e da mamãe, dessa vez, sem a necessidade de esconder lágrimas que, talvez, queiram cair.

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