"O mundo é naturalmente mal." Foi o que disse a escritora Ana Paula Maia em uma entrevista recente.
A alguns dias a filha de uma vizinha bateu na minha porta. Quando abri, me assustei com a cena daquela menina pedindo ajuda, com a mão ensanguentada, ao ter se cortado com o vidro do espelho. Eu havia acabado de terminar a primeira parte da faxina, então o piso ainda estava úmido e as coisas ainda estavam fora do lugar. Disse para entrar e levei-a até o banheiro, para limpar o ferimento e fazer um curativo com os poucos materiais que tinha em casa. No meu banheiro, a menina passou o olhar pelos produtos de cuidado e beleza, mas fixou os olhos nos meus "brinquedos de treino", que estavam de molho. Senti que ela quis perguntar o que eram aquelas bolinhas e pequenos bastões. Chamei a atenção dela para que apertasse a mão, coloquei algodão e cobri o melhor que pude. Cerca de 40 minutos depois, a mãe chegou e a levou ao hospital, onde levou dois pontos. A mãe me agradeceu por ter ajudado sua filha e eu fiquei feliz por, mesmo com o desajuste do susto, ter corrido tudo bem.
Assim como fez aquela menina, batendo na porta para pedir ajuda eu, muitas vezes, quis fazer o mesmo. Mas o medo que cerca uma criança não me permitiu e meus pedidos silenciosos em olhares não foram compreendidos.
Às vezes acho que meu pai deveria ter sido mecânico. Na garagem ou na calçada em frente de casa sempre havia algum carro que ele estava tentando consertar. A casa vivia cheia de peças de carro e cheiro de óleo e gasolina. Consequentemente, sempre haviam colegas do meu pai por perto. Houve um colega que ficou pouco tempo. Ele tinha um ar estranho, como nesses filmes em que o serial killer fica por uma temporada na cidade e depois vai embora... Ele estava arrumando um carro para o meu pai, que o autorizou a adentrar a garagem e fazer os consertos, mesmo que meu pai não estivesse em casa. Uma vez minha mãe estranhou o fato dele passar muito tempo embaixo do carro, achou que ele estava roubando uma peça ou a danificando propositalmente. Um dia eu estava em frente ao portão de casa e aquele homem me chamou. Disse que precisava dar um recado ao meu pai e me mostrar algo... eu tinha oito anos.
Como ocorre com as abelhas, ao que os zangões sentem seu cheiro e travam uma briga (muitas vezes até a morte) para acasalar, creio que assim, também, acontece com crianças vítimas desse tipo de crime. Uma vez eu estava conversando com uma colega que tinha recém assumido um cargo como assistente social. Ela estava trabalhando com famílias disfuncionais e disse que é corriqueiro uma criança vítima de ***** se tornar rebelde, ter comportamento errante, se tornar depressiva ou hipersexualizada. Após aquele ocorrido, tornei-me vista por possíveis criminosos daquele tipo. Houveram outras situações como aquela e, talvez por conta do medo do que escutei, eu não tive coragem de falar para alguém e pedir ajuda. Ouvi que se eu abrisse a boca, minha família seria morta. Eu, então, me calei. Tal como a personagem de Kristen Stewart, no filme O Silêncio de Melinda. Durante quase 30 anos, fiquei em silêncio. Hoje sei que a maioria daqueles pedaços de lixo não vive mais, não pisam mais nessa terra. Não consigo esconder o sorriso e a satisfação ao pensar que, possivelmente, o fim deles foi cruel.
Foi numa sessão de terapia que eu fui às lágrimas mais uma vez, porém levando às lágrimas, também, a minha psicóloga. Seu nome era Caroline e eu gostava muito dela. Gostava tanto que, para ela, abri pela primeira vez o que fizeram comigo. Ela não quis mais me atender depois que contei e essa atitude me doeu muito na época. Hoje, entendo que a história da minha vida a afetou mais do que deveria ter afetado e ela, simplesmente se protegeu. Para se proteger, ela precisou me abandonar. Ela disse que, sempre que eu pudesse, deveria falar sobre, pois o ato de falar torna mais fácil a cura. Porém, a minha superação, a dita cuja cura, começou antes mesmo de conseguir, finalmente, abrir a boca e falar.
Desde os ocorridos na minha infância, fui perseguida pelo pensamento de que as pessoas, instintivamente tem esse comportamento feroz para se satisfazerem. Consequentemente, na minha mente fragilizada reinava a ideia de que o sexo tornava as pessoas más. Eu não conseguia compreender porque algo que tornava as pessoas ruins era tão importante.
A virada de chave foi quando li uma reportagem com uma sexóloga e fisioterapeuta. Não me recordo o nome dela, mas lembro que, tempos depois, assisti a uma entrevista dela no programa do Jô Soares. A forma como aquela mulher falava, a postura dela, o jeito que ela deixava um assunto, até então tão pesado para mim, leve, me acendeu. "Quando eu crescer quero ser como ela!" , pensei. Com a filosofia que ela pregava, entendi que o mal que me fizeram não podia ditar a forma que eu seguiria a minha vida. Lembro da primeira vez em que, após ler vários artigos e comprar um dos vários acessórios do kit que ela vendia, senti o torpor no corpo e o ar faltar: "Uau, então é isso que todo mundo sente!". Os "brinquedos" e acessórios passaram, então, a fazer parte da minha vida.
Um dos ensinamentos que acho mais bonito na filosofia do pompoarismo é que não existe a cobrança para conseguir fazer tudo rapidamente. Não há isso de fazer muito ou pouco... cada mulher está no seu próprio estágio e aprendendo mais a cada dia e a cada exercício. Assim, também, não existe mais o pensamento das Gueixas, de ter a obrigação de satisfazer o homem e entregar tudo. É a mulher que, melhor que ninguém, conhece seu corpo. O prazer do parceiro é apenas consequência. E não, não é obrigação entregar uma performance inesquecível todas as vezes apenas por obrigação ou medo de "segurar" alguém. Se o sexo, para as mulheres, está intrinsecamente ligado às sensações e sentimentos, como entregar uma baita performance se você não estiver bem?
Após alguns anos dentro daquilo que deveria ter sido um casamento, eu simplesmente desisti. Desisti de tentar agradar, de tentar fazer dar certo, desisti dele e, tristemente, desisti de mim. Não tinha mais vontade nenhuma de conhecer esse mapa tão majestoso que é meu corpo. Após alguns meses do término, mais especificamente no mês do meu aniversário, me dei um presente especial... comprei o kit que, tempos depois, a menina veria de molho em meu banheiro, sendo higienizado para ser utilizado mais uma vez e me lembrando, todas as vezes, da mulher rara e incrível que aquela doce e machucada menininha se tornou.

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