Eu e minha amiga havíamos combinado de tomar um vinho e jogar conversa fora, após ela maldizer o namorado e terminar com ele. Estávamos acertando tudo a cerca de dois dias e, na noite anterior, estranhei o fato de eu convidá-la para dormir na minha casa e ela responder com um não curto e seco. Brinquei, dizendo que eu não tinha a intenção de seduzi-la, ela deu risada e não disse mais nada. Pressenti o que aconteceria e assim foi: no dia seguinte, comprei o vinho e ela disse que tinha um compromisso que havia esquecido. Pensei que era muito melhor ela ser sincera e dizer que estava triste por conta do término e queria ficar sozinha. Horas depois vi o carro do namorado estacionado e ouvi as risadas dos dois e, então, entendi.
Nesse mesmo dia, lembrei-me de um show que haveria numa praça, perto de onde moro. Após tomar, sozinha, a segunda taça do vinho, me troquei, ajeitei o cabelo, me maquiei, me perfumei, calcei um coturno e saí de casa. Assim que fechei o portão, avistei a cachorrinha que balança o rabo toda vez que me vê...me abaixei, acariciei e conversei com ela. Senti o sol amornar minhas costas e caminhei em direção à praça.
Haviam, ainda, poucas pessoas quando cheguei. Avistei a barraca de sucos de uma senhora que estava na praça em um evento passado, em que eu também fui. Comprei um suco dela e ela me agradeceu como se eu a tivesse salvo. Depois me dei conta de que ela era uma exceção à regra: vendendo sucos onde as pessoas só queriam álcool. No palco estava um músico solo, tocando músicas do Capital Inicial. A aparência dele me lembrou um colega de faculdade, que sempre chegava bêbado nas aulas e brigava com a professora. A professora realmente tinha um saber raso, mas não justificava o fato dele se embebedar e atrapalhar a aula, prejudicando os colegas que tentavam aprender algo.
Na última música que ele tocou, uma criança brincou com bolhinhas de sabão. Meu olhar seguiu as bolhas e uma delas me circundou e depois alçou vôo, até próxima às árvores. Vi as folhas balançando e lembrei dos pedidos que fiz soprando um dente de leão, junto ao meu filho, e que ainda estão por se realizar. Ao mesmo tempo, olhei para o céu e, internamente, agradeci por tudo.
Quando a apresentação dele acabou, a staff do evento sintonizou no rádio e começou a fazer os testes de som. Lembrei das inúmeras vezes em que trabalhei nos bastidores e em como eu amava aquilo. O palco é bom, mas o fazer acontecer me cativa. Subiu a segunda banda e a equipe estava com dificuldade de ajustar o som. O vocalista estava bravo. Eu os olhava coçando a cabeça em frente à mesa de som e pensava "é só abaixar o da guitarra e subir o do microfone!" . A baixista estava acompanhada do filho adolescente, que resmungava enquanto a mãe o pedia para sentar em frente ao palco. Mentalmente, eu também resmunguei e disse àquele adolescente chato para ele tratar bem sua mãe, pois logo ele estaria chorando por falta dela.
Subitamente, um sentimento de melancolia me atingiu. Dei um gole no suco, olhei para o raio de Sol que se fazia presente e olhei para o lado. Eu estava sozinha. Na verdade, eu sempre estive sozinha. Mas seria bom ter uma companhia, ao menos de vez em quando. Alguém que gostasse e fizesse questão da minha presença, que quisesse, realmente, passar um tempo com o meu ser... não por pena, nem por obrigação... mas por realmente gostar de mim e se sentir bem com a minha companhia. Um solo de guitarra cortou meu pensamento e eu olhei para o palco...um guitarrista com a mão com deficiência estava tocando. Olhei para ele e sorri, empaticamente pensando em quantos obstáculos ele ultrapassou para poder, naquele momento, tocar tão bem. Provavelmente ele não teve um infância pobre nem passou por extremas dificuldades... talvez tenha vindo de uma família estruturada que o permitiu ter acesso a bons tratamentos, aulas de música e tudo o mais. Mas, talvez, fosse justamente o contrário e a música foi, realmente, uma jornada do herói, para ele.
Gravei um trecho da banda tocando Livin' on a Prayer e mandei para uma amiga que é fã do Bon Jovi, seguido de uma mensagem bonita, que só iria chegar ao celular dela quando eu chegasse em casa, tal como a carta do pai ao filho, em A garota das laranjas.

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