Eu estava com os fones no ouvido e começou a tocar uma música do Cruxshadows e me bateu uma saudade do meu amigo, que dançava EBM comigo. Nós achávamos que dançávamos, mas na verdade éramos motivo de piada. E essa que era a graça. O Ston se afogou na represa, achando que sua vida não valia a pena. Mas poxa, valia a pena para mim. Assim como a vida do New, do Danilo, da Finha e de tantas pessoas preciosas que eu perdi ao longo do caminho da vida.
Era o trajeto para buscar meu filho, porém seu avô avisou que se atrasaria. Então me sentei para esperar "dar o horário". "Eu tô ficando sem bunda de tanto esperar sentada que os outros façam suas coisas.", brinquei comigo mesma.
Os últimos dias tem sido marcados por momentos de dores súbitas. Uma vez me deram uma bronca, disseram que o meu problema é que eu não parava nem por um segundo. "Não posso me dar ao luxo de parar", foi minha resposta. Tempos depois, porém, fui obrigada a desacelerar. Mas a minha mente não parou. Continua a trabalhar e me provocar, fazendo meu sentir se rebelar. Uma vez um psicólogo me perguntou se eu preferia ser uma pessoa relativamente fria ou se preferia sentir com intensidade. Me senti como Anneliese Michel em seu "encontro" com a virgem Maria, com a pergunta. Respondi que, por mais que doa, eu preferia sentir, pois sem sentir minha vida não teria valido a pena.
Ao meu lado sentou um grupo de cinco jovens e, na conversa deles, ficou claro que o casal do grupo eram irmãos. Olhei para aqueles dois e suspirei. Queria que as relações com meu irmão fossem um pouco diferentes. Queria que ele se importasse um pouco mais, me defendesse um pouco mais, ligasse um pouco mais. Mas nunca foi assim. Nunca. Ele sempre viveu alheio à minha vida e é só mais um dos homens sem atitude para a vida, que vejo tanto. Na pré escola, fui eu a defende-lo e bater em outra criança que o tentava socar. Quando eu tanto precisei de defesa, de ombro, de palavra, encontrei muros.
No banco em que eu estava, batia um raio de Sol tímido, de um fim de tarde ameno. As cores no céu começavam a se misturar com o pôr do Sol, pintando um quadro bonito no horizonte. Vi as linhas, cores e luzes na estação e tirei um foto. Mais uma das que ficarão guardadas na galeria do celular e que, talvez, eu publique quando estiver bem para isso. Encostado na parede da escada rolante, estava um casal se beijando. A luz e o contraste deixava suas silhuetas suaves. Fiquei um tempo olhando aquela cena. Era um beijo bonito. Não daqueles beijos feios que chamamos de "desentupidores de pia", afobados. E nem pareciam beijos pré sexuais. Parecia um beijo com sentimento. Me lembrou a cena do beijo do Batman e da Mulher Gato. "Poxa...queria.", brinquei comigo. Baixei a cabeça e virei o rosto. Lembrei das poucas bocas que eu quis realmente beijar, mas que escolheram outros lábios, que não os meus. Lembrei de um namoradinho da adolescência que tinha um beijo gostoso, mas só dava mancada comigo.
Meu ex marido, em um de seus poucos momentos de lucidez, me escreveu, certa vez: "Te amo Lidia, seja feliz pois você merece. Você é a melhor coisa que pode acontecer na vida de alguém... Você é tipo um tsunami ou um furacão e pior que você nem tem tamanho pra isso. Eu errei muito e daria o restante da minha vida para desfazer tudo que fiz." . Se alguém cuja falsa bondade consegue enganar tanta gente, que me fez tão mal, diz isso, será que sou mesmo a "melhor coisa" para alguém?
Uma vez conversei com uma colega sobre um paquera da escola, na adolescência. Mais um sem coragem, porém éramos todos adolescentes covardes. "Eu acho que ele acha que você é muita coisa pra ele!", ela disse. "Sou mesmo.", foi a minha resposta e, logo, desencanei.
Outra vez, uma pessoa que eu nem tinha tanto contato disse, sobre um "quase namorado", a alguns anos atrás : "Ele vai se arrepender de não chegar nela, porque ela é divertida, inteligente e muito bonita!"
Não é carência. Acredito que seja o peso das dores recaindo sobre meus ombros. O escolher sentir tem lá seus efeitos colaterais. Hoje, não é uma opção aceitar alguém em minha vida somente para preencher algum vazio ou satisfazer os desejos. Para adentrar a minha vida, somente se for para me mostrar que uma relação pode sim ser leve, justa, sincera, fiel e respeitosa. Mas, às vezes eu me pergunto... será que aquela cigana que me falou palavras duras sobre o amor estava certa? Se eu sou especial, como alguns disseram que sou ... por que ninguém quer minha companhia? Talvez eu não seja tão especial assim.
Lembrei do que uma moça me disse em um terreiro, uma vez, sobre um homem na minha vida que realmente me enxergava. Poxa, onde está esse homem que me vê como realmente sou e que se importa comigo? Será que ele é só mais um no meio desse bando de homens que não tem coragem de dizer o que sente para uma mulher? Só mais um que me "deixará passar" e me perderá? Só mais alguém que não liga, realmente, pra mim? "Espero que esse homem me mostre que é diferente, que é um homem de verdade.", lamentei.
Olhei para frente e vi as luzes de Natal penduradas, enfeitando a fachada de um estabelecimento. Mais uma vez, a dor me apertou. O tempo do entardecer era semelhante ao de tardes da minha pré adolescência, me fazendo lembrar da sensação da brisa tocando na pele. Respirei fundo e lembrei da minha mãe e de que, certa vez, uma "missionária" disse que eu viveria o que a minha mãe não pôde viver. Lembrei de como a sua vida toda, inclusive sua vida amorosa, foi triste. Ela saiu de Sergipe para São Paulo após o término de um noivado. Soube que minha avó, durante muito tempo, guardou o enxoval que ela havia preparado, na esperança de que um dia, minha mãe retornasse. Aqui, ela conheceu meu pai e o resto é história para outro texto.
Eu lembro de um amigo da minha mãe, um homem especial. Não me lembro de seu nome, mas lembro vagamente de sua aparência. Um homem desses que se pode dizer que são diferentes. Ele era viúvo e sua esposa havia morrido em seus braços. Para superar a depressão ele aprendeu crochê e, acredito, foi esse hobbie em comum que o aproximou da mamãe. Ele a presenteou com um marca página em bordado uma vez e ela guardou aquele presente até seu último dia de vida. Me lembro de como ele olhava para a mamãe, como se enxergasse a alma dela. Mamãe olhava para ele da mesma forma. Quando a mamãe faleceu, eu soube que ele ficou tão despedaçado que não conseguiu, sequer, ir ao enterro. Acho que eles nunca tiveram nada, pois a mamãe, assim como eu, tinha convicções muito fortes sobre a fidelidade dentro de um relacionamento. Mas gosto de pensar que, por um instante, ela soube, naquelas trocas silenciosas de olhares, que era uma mulher especial, desejada, bonita...amada.
Olhei para o casal, que agora estava abraçado. Ele acariciando os cabelos cacheados dela e ela as costas dele. Abaixei a cabeça... "Eu queria saber como é ser amada", pensei.
Olhei para o relógio e me levantei para buscar o único homem que jamais será um ex na minha vida.
Anoiteceu... e anoiteceu dentro de mim também.

Nenhum comentário:
Postar um comentário