"Assim se conseguem as coisas boas na vida: devagar e esperando que aconteçam."
Eu e meu irmão crescemos em um lar disfuncional, porém regado a arte. Talvez a arte fosse, também, a válvula de escape de nossos pais. Crescemos ao som de blues, jazz, rock, música clássica e as músicas que meu pai compunha, cantava e tocava. Hoje essas músicas levariam o título de gospel. Na tv, não podíamos assistir à novela nem nada da programação da rede globo, então assistíamos aos desenhos animados do SBT pela manhã e à tv cultura no restante do dia. Aos domingos, nada de Faustão ou Domingo Legal, o programa era documentários da tv cultura, como Planeta Terra e musicais. O resultado não poderia ser outro: desde a tenra idade, nutrimos o desejo de aprender a tocar algum instrumento musical, dançar, pintar, fazer algum tipo de arte.
No meu quarto aniversário, ganhei um saxofone de brinquedo e, alguns anos depois, assisti a Lisa Simpson tocar um Sax semelhante. Coloquei, então, na cabeça que queria aprender a tocar saxofone. Porém saxofones e quaisquer outros instrumentos, eram caros.
O nosso pai era multiinstrumentista autodidata. Ele sabia tocar, mas não sabia ensinar. E não compreendia isso. Ele queria, a todo custo, nos ensinar a tocar seu violão, porém ele não sabia nem ensinar a posicionar os dedos nos acordes.
Alguns anos mais tarde, nossa mãe nos levou a uma loja de instrumentos musicais. Lembro - me até hoje de ver os dedos da minha mãe acariciar em as teclas do piano. Hoje penso que ela gostaria muito de ter aprendido a tocar. Lembro - me da escada caracol que subimos e que nos levou ao andar de cima onde vi o instrumento que cativou minha alma: o violino.
Nutri por anos o desejo de aprender a tocar aquele instrumento tão pequeno e tão grande ao mesmo tempo. A algumas décadas atrás, não haviam tantas instituições que forneciam aulas gratuitas de música ou de quaisquer outras artes. Também não havia divulgação suficiente. Lembro que em algumas cartas que minha mãe escreveu, em seus momentos de angústia e súplica, ela chegou a pedir bolsas de estudos para nós em algumas fundações, onde aprenderíamos tais artes também. As cartas da minha mãe nunca foram respondidas. Ou, talvez, possam ter tido uma resposta que se perdeu, já que nós nos mudávamos tanto.
Pouco tempo após o falecimento da mamãe, vi uma reportagem na TV Cultura sobre o Projeto Guri. Coincidentemente, meu irmão havia pego, em uma oficina cultural, um guia chamado Sampa Sem, com um elencado de endereços de instituições culturais que ofereciam diversos cursos e serviços gratuitos. Nesse guia havia o endereço do pólo mais próximo de nós, do projeto guri. No dia seguinte eu e meu irmão fomos até lá e nos matriculamos, ele para aprender a tocar violoncelo, e eu, violino. O pólo tinha uma distância de cerca de 5 quilômetros a partir de nossa casa e nós íamos andando para as aulas. Não tínhamos dinheiro para a passagem de ônibus. Os pés e calcanhares doíam, mas depois de um tempo nos acostumamos. Na primeira aula de violino, a moça da secretaria disse que eu podia pegar um estojo e segui - lá até a sala onde aconteciam as aulas de instrumentos de cordas. Escolhi o estojo número 10, um estojo verde. Nas aulas posteriores, quando o violino número 10 não estava disponível, eu escolhia o de número 22. Anos depois esses foram meus nicknames no msn e no Skype: @lidiaviolino10 e @lidiaviolino22.
As aulas na sala de cordas, como era chamada, eram a nossa fuga. Muitas vezes passávamos a noite em claro, pois nosso pai alcoolizado não havia nos deixado dormir. Houveram algumas vezes em que passamos a noite na rua, após ele nos expulsar de casa e íamos direto para a aula. Era comum estar cansada às 10hs da manhã ou, às vezes, faltar na aula por conta do cansaço. O professor de violino não entendia e também não sabia das nossas condições, e criou certa "birra" comigo. Na aula em que ele ensinou a segurar e tocar com o arco do violino, eu faltei. Ele não me ensinou. Nas aulas que se sucederam, todos praticavam com seus violinos posicionados no ombro e com o arco em mãos. Eu não. Hoje chamam de bullying ou assédio moral o que aquele professor fez comigo. Doeu muito perceber que aquilo, aquela "cultura da humilhação", era comum no ambiente da música clássica. Eu murchei e pensei em desistir. Mas eu realmente amava o violino. Foi então que, creio que inconscientemente, quis ser autodidata como meu pai: perguntava aos colegas como segurar o violino e, na hora das aulas, tocava em pizzacato, porém com o violino no ombro. Quando tocava, olhava diretamente para o professor, que entendia que estava sendo desafiado. Na minha casa, eu treinava o empunhar do violino e as arcadas com meu "violino imaginário", pois não possuía um instrumento. Chegou o dia em que haveria uma apresentação musical com a orquestra e o professor não teve outra alternativa, a não ser me ensinar a tocar com o arco. Finalmente ouvi o ressoar da minha primeira arcada: feia, suja e desafinada...como na maioria dos meus começos.
Hoje tirei meu violino do estojo e toquei uma música. A vida não me levou aos caminhos que eu gostaria de ter seguido, nem às notas que eu gostaria de ter tocado. Hoje toquei uma música que gosto e fiquei triste por não ter o som que gostaria de ter, nem de ter alcançado o que eu, um dia, quis alcançar. Mas, assim como a música foi meu refúgio e me salvou diversas vezes, hoje tenho um pequeno pedaço de madeira para o qual me voltar e tocar, quando a minha alma pesar. Estou longe de ter o som que um dia almejei ter...mas ao menos faço ecoar no ar as notas soturnas do meu caminhar. Hoje olhei pro violino, baixei a cabeça e pensei que, talvez, tenha valido a pena não desistir.

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