Encontrei, mamãe. 🥹
Não preciso me drogar para ser um gênio, Não preciso ser um gênio para ser humano, Mas preciso do seu sorriso para ser feliz.
terça-feira, 3 de novembro de 2026
Eu estava com os fones no ouvido e começou a tocar uma música do Cruxshadows e me bateu uma saudade do meu amigo, que dançava EBM comigo. Nós achávamos que dançávamos, mas na verdade éramos motivo de piada. E essa que era a graça. O Ston se afogou na represa, achando que sua vida não valia a pena. Mas poxa, valia a pena para mim. Assim como a vida do New, do Danilo, da Finha e de tantas pessoas preciosas que eu perdi ao longo do caminho da vida.
Era o trajeto para buscar meu filho, porém seu avô avisou que se atrasaria. Então me sentei para esperar "dar o horário". "Eu tô ficando sem bunda de tanto esperar sentada que os outros façam suas coisas.", brinquei comigo mesma.
Os últimos dias tem sido marcados por momentos de dores súbitas. Uma vez me deram uma bronca, disseram que o meu problema é que eu não parava nem por um segundo. "Não posso me dar ao luxo de parar", foi minha resposta. Tempos depois, porém, fui obrigada a desacelerar. Mas a minha mente não parou. Continua a trabalhar e me provocar, fazendo meu sentir se rebelar. Uma vez um psicólogo me perguntou se eu preferia ser uma pessoa relativamente fria ou se preferia sentir com intensidade. Me senti como Anneliese Michel em seu "encontro" com a virgem Maria, com a pergunta. Respondi que, por mais que doa, eu preferia sentir, pois sem sentir minha vida não teria valido a pena.
Ao meu lado sentou um grupo de cinco jovens e, na conversa deles, ficou claro que o casal do grupo eram irmãos. Olhei para aqueles dois e suspirei. Queria que as relações com meu irmão fossem um pouco diferentes. Queria que ele se importasse um pouco mais, me defendesse um pouco mais, ligasse um pouco mais. Mas nunca foi assim. Nunca. Ele sempre viveu alheio à minha vida e é só mais um dos homens sem atitude para a vida, que vejo tanto. Na pré escola, fui eu a defende-lo e bater em outra criança que o tentava socar. Quando eu tanto precisei de defesa, de ombro, de palavra, encontrei muros.
No banco em que eu estava, batia um raio de Sol tímido, de um fim de tarde ameno. As cores no céu começavam a se misturar com o pôr do Sol, pintando um quadro bonito no horizonte. Vi as linhas, cores e luzes na estação e tirei um foto. Mais uma das que ficarão guardadas na galeria do celular e que, talvez, eu publique quando estiver bem para isso. Encostado na parede da escada rolante, estava um casal se beijando. A luz e o contraste deixava suas silhuetas suaves. Fiquei um tempo olhando aquela cena. Era um beijo bonito. Não daqueles beijos feios que chamamos de "desentupidores de pia", afobados. E nem pareciam beijos pré sexuais. Parecia um beijo com sentimento. Me lembrou a cena do beijo do Batman e da Mulher Gato. "Poxa...queria.", brinquei comigo. Baixei a cabeça e virei o rosto. Lembrei das poucas bocas que eu quis realmente beijar, mas que escolheram outros lábios, que não os meus. Lembrei de um namoradinho da adolescência que tinha um beijo gostoso, mas só dava mancada comigo.
Meu ex marido, em um de seus poucos momentos de lucidez, me escreveu, certa vez: "Te amo Lidia, seja feliz pois você merece. Você é a melhor coisa que pode acontecer na vida de alguém... Você é tipo um tsunami ou um furacão e pior que você nem tem tamanho pra isso. Eu errei muito e daria o restante da minha vida para desfazer tudo que fiz." . Se alguém cuja falsa bondade consegue enganar tanta gente, que me fez tão mal, diz isso, será que sou mesmo a "melhor coisa" para alguém?
Uma vez conversei com uma colega sobre um paquera da escola, na adolescência. Mais um sem coragem, porém éramos todos adolescentes covardes. "Eu acho que ele acha que você é muita coisa pra ele!", ela disse. "Sou mesmo.", foi a minha resposta e, logo, desencanei.
Outra vez, uma pessoa que eu nem tinha tanto contato disse, sobre um "quase namorado", a alguns anos atrás : "Ele vai se arrepender de não chegar nela, porque ela é divertida, inteligente e muito bonita!"
Não é carência. Acredito que seja o peso das dores recaindo sobre meus ombros. O escolher sentir tem lá seus efeitos colaterais. Hoje, não é uma opção aceitar alguém em minha vida somente para preencher algum vazio ou satisfazer os desejos. Para adentrar a minha vida, somente se for para me mostrar que uma relação pode sim ser leve, justa, sincera, fiel e respeitosa. Mas, às vezes eu me pergunto... será que aquela cigana que me falou palavras duras sobre o amor estava certa? Se eu sou especial, como alguns disseram que sou ... por que ninguém quer minha companhia? Talvez eu não seja tão especial assim.
Lembrei do que uma moça me disse em um terreiro, uma vez, sobre um homem na minha vida que realmente me enxergava. Poxa, onde está esse homem que me vê como realmente sou e que se importa comigo? Será que ele é só mais um no meio desse bando de homens que não tem coragem de dizer o que sente para uma mulher? Só mais um que me "deixará passar" e me perderá? Só mais alguém que não liga, realmente, pra mim? "Espero que esse homem me mostre que é diferente, que é um homem de verdade.", lamentei.
Olhei para frente e vi as luzes de Natal penduradas, enfeitando a fachada de um estabelecimento. Mais uma vez, a dor me apertou. O tempo do entardecer era semelhante ao de tardes da minha pré adolescência, me fazendo lembrar da sensação da brisa tocando na pele. Respirei fundo e lembrei da minha mãe e de que, certa vez, uma "missionária" disse que eu viveria o que a minha mãe não pôde viver. Lembrei de como a sua vida toda, inclusive sua vida amorosa, foi triste. Ela saiu de Sergipe para São Paulo após o término de um noivado. Soube que minha avó, durante muito tempo, guardou o enxoval que ela havia preparado, na esperança de que um dia, minha mãe retornasse. Aqui, ela conheceu meu pai e o resto é história para outro texto.
Eu lembro de um amigo da minha mãe, um homem especial. Não me lembro de seu nome, mas lembro vagamente de sua aparência. Um homem desses que se pode dizer que são diferentes. Ele era viúvo e sua esposa havia morrido em seus braços. Para superar a depressão ele aprendeu crochê e, acredito, foi esse hobbie em comum que o aproximou da mamãe. Ele a presenteou com um marca página em bordado uma vez e ela guardou aquele presente até seu último dia de vida. Me lembro de como ele olhava para a mamãe, como se enxergasse a alma dela. Mamãe olhava para ele da mesma forma. Quando a mamãe faleceu, eu soube que ele ficou tão despedaçado que não conseguiu, sequer, ir ao enterro. Acho que eles nunca tiveram nada, pois a mamãe, assim como eu, tinha convicções muito fortes sobre a fidelidade dentro de um relacionamento. Mas gosto de pensar que, por um instante, ela soube, naquelas trocas silenciosas de olhares, que era uma mulher especial, desejada, bonita...amada.
Olhei para o casal, que agora estava abraçado. Ele acariciando os cabelos cacheados dela e ela as costas dele. Abaixei a cabeça... "Eu queria saber como é ser amada", pensei.
Olhei para o relógio e me levantei para buscar o único homem que jamais será um ex na minha vida.
Anoiteceu... e anoiteceu dentro de mim também.
domingo, 1 de novembro de 2026
Ontem eu demiti uma amiga.
Eu tenho me sentindo muito só... mas, na verdade, sempre foi assim. Mesmo cercada de pessoas, eu não sentia que me adequava aos lugares e ocasiões. Nos grupinhos de colegas andando na calçada, eu era sempre a que ficava atrás. Com o passar do tempo, com a chegada da vida adulta e seus pormenores, isso foi diminuindo... porém eu continuava a ser aquela amiga que todos podem contar, que todos pedem conselhos, que todos elogiam, mas que ninguém quer saber se realmente está bem. Com o passar do tempo, acabei me acostumando...mas me acostumar não significa que não doa.
Eu tinha uma amiga que eu gostava muito. Estudamos juntas e tínhamos muita coisa em comum, inclusive, as relações com as tristezas e questões da mente. Em seus muitos momentos de crise, ela desabafou comigo. Quando ela engatava um relacionamento com um "boy lixo", eu aconselhava e brincava dizendo que ia dar uma surra de cinta nela, pra ela criar vergonha na cara. Ela dividiu, comigo, muitos momentos de angústia em conversas demoradas, mas que pareciam durar apenas alguns minutos.
Depois que nos formamos, a vida não permitiu que nos víssemos sempre e eu brincava que nossos encontros passaram a ser acompanhados pela Bienal.
Uma vez, quando a neta dela estava para nascer, fiz questão de encomendar um presente especial e levar o meu filho para que ela o conhecesse (Pois é, eu engravidei, pari, sofri e ela não fez questão de me ver...). Eu disse ao meu filho que ela era uma pessoa especial pra mamãe, então ele fez um buquê com folhas para dar a ela.
Enquanto eu era apoio para ela, quando eu precisava de um ombro, ela pedia perdão e dizia que não estava em condições de ajudar ninguém. Em meus momentos de fundo do poço, em que fiz planos que, hoje, me pergunto como fui capaz de fazer, eu não tive sequer um amigo para compartilhar minhas dores. Somente meu gato se deitava no meu colo, enquanto as lágrimas escorriam dos meus olhos. Quando eu me tornei mãe e precisei de, ao menos, uma palavra, ninguém foi até minha casa me visitar. Quando eu sofri o que sofri ao decidir acabar com aquilo que o ex chamou de casamento, contei nos dedos de uma mão quantas pessoas se importaram. Não utilizei todos os cinco dedos para contar. E vi as pessoas que, até pouco tempo antes, diziam gostar de mim, excluindo meu número de seus contatos. Procurei a amiga que é sujeito dessa história... disse o que aconteceu... e ela não respondeu. Dias depois, pediu desculpas novamente e falou sobre seus problemas. Só que, naquele momento, os meus problemas eram mais graves.
No início do ano eu queria assistir à transmissão do Oscar, então chamei essa amiga. Ela disse que não iria assistir porque estava depressiva mas, horas depois, publicou em suas redes sociais que estava assistindo à cerimônia na sala de sua casa. Tempos depois a convidei para ir a um show comigo e, novamente, ela tinha algo mais importante para fazer.
A alguns dias ela publicou um vídeo, mostrando que estava numa apresentação musical. Brinquei com ela, dizendo que para esses rolês ela não me chamava, e então ocorreu o diálogo a seguir:
"Aí.. Lídia... Não fala desse jeito. Fui depois de uma perícia médica, nem tinha programado nada. Só saio no impulso."
"Pode deixar, nunca mais falo nada.", foi a minha resposta.
Ela disse que não programou e foi depois de uma perícia médica, mas publicou vídeos onde dizia que iria se levar para sair, antes.
É isso, fim de uma amizade unilateral. Eu poderia dizer que estou vivendo o luto dessa amizade, mas não estou. Luto se sente quando a importância, o sentimento bom, era dos lados. Nessa e em tantas outras histórias de amizades furadas na minha vida, só eu me importava.
Por muito tempo pensei que o problema era eu, que havia algo de errado comigo que fazia as pessoas não gostarem de mim. O ex, durante muito tempo, me fez acreditar nisso também. Mas, ao fazer o balanço que culminou no fim e bloqueio disso que eu chamava de amizade, lembrei de algo que me disseram, uma vez: "Você é uma mulher sensível num mundo doido." . Sim, acho que realmente a questão sou eu. Mas, com certeza, não sou eu o problema.
Ontem eu demiti uma amiga. Não houveram grandes brigas nem pedidos de compreensão, apenas a demiti por não aguentar mais ser tratada como nada. Diferente de Pacarrete que, chorando, disse "Eu grito tanto que ninguém me escuta." , eu nunca gritei com a voz. Mas gritava com os olhos, com os sentimentos... e ela não me escutava.
sábado, 31 de outubro de 2026
Em minha vida conheci muitas crianças especiais, mas meu filho é, de longe uma das crianças mais especiais que conheço e conheci. Não digo isso só por ser mãe dele. Eu sou crítica o suficiente para não relevar seus defeitos. E sou crítica, muito mais, a mim mesma.
Dizem que quando nasce um filho, nasce também uma mãe. No meu caso, isso é uma verdade absoluta. Eu e meu filho aprendemos juntos o que é essa vida, essa relação de sangue. Com ele aprendi a segurar um bebê nos braços. Com ele acertei e falhei tantas vezes que não consigo contar. Com ele meu senso de responsabilidade grita mais que o comum.
Muito se fala da romantização da maternidade. Realmente, a maternidade é algo inexplicavelmente mágico porém, também, cruel. O peso de ser exemplo, de ser forte, de ser leve, de ser...tudo...esgota.
Eu nunca tive apoio de ninguém, sempre fui eu sozinha a cuidar dele...de um ano pra cá, mais ainda. Mas, desde essa data, consegui algo que eu sempre me culpava por não conseguir realizar: passear com ele. Juntos compartilhamos momentos mágicos onde, até uma volta na praça, se torna especial. No fim dos passeios eu sempre pergunto: "Minato, você gostou? Você se divertiu?" . Ele, em seguida, me faz as mesmas perguntas.
A alguns meses ele me pediu para irmos assistir a um jogo de futebol. Eu nunca fui a um estádio. Gosto de acompanhar esportes de vez em quando, mas até então, não tinha pensado sobre, algum dia, ir a um estádio. Achava que seria o pai a leva-lo, mas, obviamente, o pai prefere gastar comprando bebidas do que levar o filho para passear.
Haveria um jogo gratuito num estádio importante. Eu fiz o cadastro em meu nome e no nome do meu filho. Deixei para dizer a ele um dia antes, pois queria fazer uma surpresa. Então, no dia anterior, contei à ele que iríamos assistir um jogo de futebol, assim como ele havia me pedido. Seria a primeira vez dele e também a minha. Ele ficou feliz e começou a fazer as intermináveis perguntas dele.
No dia seguinte, acordei ele para se arrumar e comecei a arrumar, também, a mochila dele pois após o jogo, encontraríamos o avô dele. Era o aniversário do avô, que faria uma festinha com churrasco e queria seu único neto presente. Após nos aprontarmos, colocamos as mochilas nas costas e saímos. Paramos num mercado próximo para comprar água e algumas coisas para comer, pois imaginava que seria caro para comprar nos arredores do estádio. Foi - se o pouco dinheiro que levei. Mas o transporte estava garantido e o jogo seria gratuito, então tudo bem. No meio do caminho, me veio na cabeça o pensamento de ver se poderíamos entrar com garrafas de água no estádio. Pesquisei no amigo Google... Não era permitido a entrada de mochilas... Súbito, fui tomada por uma sensação de impotência. Mentalmente me xinguei. Como eu pude ser tão idiota a ponto de não fazer uma simples pesquisa antes? Meu filho notou minha expressão e perguntou por que eu estava com cara triste. Quando eu disse à ele, ele ficou chateado também... Mas tempos depois lembrou que tinha a festinha do vovô e um bailinho de Dia das Bruxas que o tio o levaria. Ele não perdeu o sorriso porque algo não deu certo, não saiu conforme o planejado. "Mamãe, esses caras do estádio não deixam passar uma, né." , ele disse.
Levei ele para dar uma volta num lugar que gostamos, para não "passar em branco" o dia legal que ele teria comigo. Ele, como uma criança especial que é, se divertiu com pequenas coisas: uma lojinha com pelúcias engraçadas, um homem vestido com roupas estranhas e adolescentes fantasiados, provavelmente indo para um baile de Halloween, assim como ele mesmo iria horas depois. Na vitrine de uma banca de jornal vimos miniaturas de fuscas e ele disse que era uma pena não ter nenhuma miniatura de fusca bege para eu comprar. "Mesmo que tivesse, a mamãe tá sem dinheiro agora.", respondi.
Entramos novamente no transporte e o Minato, sempre muito comunicativo, começou a conversar com uma senhora que estava à nossa frente. No meio da conversa ele disse que a mamãe ficou triste pois teve um plano que não deu certo e a idosa respondeu: "Quando algo está nos planos de Deus, mesmo com os desencontros dá tudo certo no final, assim como a sua vida. Você será um grande homem!" . Achei curioso o que ela disse, mas sorri um sorriso sincero quando ela disse que meu filho será um grande homem. "Amém.", respondi. Encontramos com o avô, e o Minato fez uma festa gigantesca ao vê -lo. Me despedi e fui embora, mas aquela sensação de impotência ainda estava lá. O dia estava bonito, meu filho teria um dia legal e eu não queria que um dia que começou com algo que não deu certo, terminasse ruim. Pensei em algum lugar para ir e pensei nas perguntas que meu filho me faria "Você se divertiu, mamãe?" . Pensei, mas a onda que se aproximou no dia anterior não havia ido embora totalmente... então meus pensamentos ofuscaram. Olhei para o relógio e me perguntei se ainda daria tempo de assistir, ao menos o fim, do jogo. Mas quando a onda chega, não é bom ficar sozinha... queria ao menos uma boa companhia. Mandei mensagem para uma pessoa que eu queria muito abraçar e que foi ao jogo, pensando se daria tempo. Ele disse que não ficaria para o jogo seguinte e, pelas minhas contas, não daria tempo de eu chegar no jogo que estava ocorrendo. Eu quis dizer para, então, nos encontrarmos para tomar um café... mas pensei que ele iria negar. "Nem adianta perguntar, cê sabe que ele não vai! E cê tá sem dinheiro até pra guardar a mochila, quem dirá para um café." , minha mente me respondeu, sempre jogando no time contra mim.
Seguindo o piloto automático, fui em direção à minha casa. No caminho, pela janela do metrô, eu via a neblina descer. As nuvens estavam descendo sobre mim também. Abri a porta de casa, olhei para os cômodos silenciosos e pensei no meu filho... pelo menos ele vai se divertir e vai continuar iluminando as pessoas que estão com ele. Quando der, levo ele num jogo. E, num próximo momento, eu me divirto também.
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
"(...) Mas você mudou de ideia? Você moraria ou se casaria com alguém de novo?
- Sim. Se eu eu gostar muito da pessoa, se ele for bom para mim e para o meu filho, e se eu ver que é alguém que vai somar na minha vida, sim "
- E você moraria comigo algum dia?
- Com certeza, não. "
Foi assim que, a um tempo atrás, eu disse não para o que, talvez, se tornaria um relacionamento.
Hoje, não consigo mais me imaginar em uma relação pesada, onde tenho que me desgastar e, praticamente, me humilhar, para ter respeito, lealdade e carinho. Outro dia uma colega de Krav Maga disse estar muito feliz pois, finalmente, estava sendo amada em voz alta. Seu novo namorado faz questão de postar fotos dos dois juntos a todo momento. Fiquei feliz por ela mas, ao mesmo tempo, lembrei-me de um amigo que teve a mesma atitude com sua, então, namorada. Era muito bonito de se ver, os dois trocavam declarações públicas de afeto, faziam questão de publicar as muitas fotos que tiravam, das muitas viagens que faziam. Compartilhavam, praticamente, todos os momentos e hobbies e, sendo sincera, chegou no ponto em que não dava pra saber qual era o lazer favorito de quem. Os dois estavam se fundindo. Não me surpreendeu quando, abruptamente, os dois apagaram todas as fotos, mudaram os status de relacionamento e se deletaram das redes sociais. Eu gosto de redes sociais, mas sempre tive uma relação estreita com as mesmas. Nunca fui de publicar fotos ou vídeos de cada segundo da minha vida, da minha rotina. Poderia-se dizer que é por conta da minha geração, que cresceu sem as facilidades do mundo virtual, mas inúmeros colegas da mesma faixa etária passaram a ser "influencers", publicando até o que faziam em intimidade.
Em algumas conversas ouvi dizerem que o que ninguém vê, ninguém inveja e o que ninguém sabe, ninguém prejudica. Gosto de ser tratada como um ser especial na vida de alguém, gosto das fotos publicadas com textos bonitos e surpresas. Mas, hoje, dou mais valor a ser amada com sinceridade e simplicidade. Com olhar de olhos nos olhos; com palavras sinceras e verdadeiras e não somente para fazer bonito; com silêncios que não doam. Hoje sei que não adianta alguém tecer elogios a mim para todos e, quando está sozinho comigo, mal olhar para mim, mal me ouvir, mal me acariciar, mal me notar. Hoje, eu não tiro a importância de ganhar um elogio ou homenagem em público e, como toda mulher, gosto. Mas, hoje, eu também valorizo os pequenos e grandes gestos dos bastidores, dos dias normais... valorizo as pequenas grandes perguntas que fazem toda a diferença e as pequenas grandes ações que salvam uma convivência.
Semana passada eu lavei as roupas que meu filho usou durante mais uma semana especial nossa. No varal, pendurei roupas do Batman, do Homem Aranha, do Super Homem e fantasias de monstrinhos e dinossauro. Enquanto fazia o serviço doméstico, agradecia por hoje, poder viver com meu filho algo que eu tanto sonhei e não conseguia realizar enquanto convivia com o pai dele. Soa estranho falar mas, na verdade, o pai dele sempre esteve mais para um irmão mais velho, do que para um pai. Hoje e por todo o resto da minha vida, não aceito e não aceitarei que a beleza dos meus dias e dos dias do meu filhos sejam menosprezadas. Nem que me mandem parar de cantar com meu filho, pois o "barulho" incomoda; nem que me digam que o que eu ou meu filho fizemos e que achamos tão legal, não tem importância; nem que digam que eu mereço coisas ruins pois não sou suficiente... não aceito alguém que pense que pode, simplesmente, apagar toda a minha história por não ter importância para ele... não aceito alguém que não me respeite nem admire pois, com certeza, só escolherei e ficarei com quem eu admirar e respeitar. E respeito também se demonstra em pequenas atitudes. Eu vi esse vídeo no Instagram e me doeu pensar que o que aquela mulher viveu, na verdade, nunca foi um casamento. E dói perceber, também, que a maioria das pessoas, na verdade, não sabe. E não é isso que quero para mim.
Sim, eu penso em algum dia, dividir a vida com alguém novamente... mas, obviamente, não com qualquer pessoa. A "DR" descrita no começo do texto continuou e o cara perguntou o porquê de eu dizer que nunca moraria com ele. Sem me deixar falar, ele fez uma sequência de perguntas e não pude conter uma cara de tédio. Quando viu que suas indagações não estavam funcionando, ele socou a parede. Na mesma hora, peguei minha mochila, levantei, o xinguei e fui embora. Dias depois, em uma conversa com uma amiga, ela disse que, na verdade, eu estava deixando os meus traumas e gatilhos falaram mais alto. Eu fechei a cara e respondi que, justamente por ter vivido tais traumas e gatilhos, é que eu não aceito mais certas situações e comportamentos. "O escroto que soca a parede e taca uma panela no chão quando estamos discutindo, claramente está treinando pra fazer o mesmo em mim!", disse à ela. Aquele otario me perguntava o porquê de eu não dar o endereço da minha casa à ele. "Não é qualquer um que pode saber onde eu moro.", eu respondia. Sei que vesti uma armadura pesada e, reconheço, tratei algumas pessoas com ignorância. Mas antes eu sair como doida, do que admitir na minha vida e na vida do meu filho, alguém que possa estragar tudo que eu lutei tanto para conseguir. Aqui, gente sem caráter não se cria. Não mais!
Para adentrar a minha vida, o "merecedor" terá que entender que eu não sou a mulher mais bonita do mundo, nem a mais inteligente, nem a mais gostosa, nem a que transa melhor... Terá que ter a decência de entender que passei por situações horríveis que me deixaram marcas e não fique, constantemente, tocando em minhas feridas.
Um dia, quero saber como é ser amada... Mas quero ser amada com sinceridade e fidelidade. Quero um amor de verdade...um amor alegre... não somente um amor para fotos, que se perderão ou serão apagadas na primeira discussão...
A música Ain't no sunshine, fala do vazio deixado pela falta de alguém... Pode ser interpretada, também, pelo vazio que fica quando a alegria vai embora...
Um dos super poderes de ser alguém como disseram que sou, é que podemos pressentir quando a onda de tristeza está se aproximando... mas, confesso, acredito que estou perdendo as habilidades desse poder... Ou, talvez, essas ondas não tenham mais a obrigação de "avisar" quando estão próximas.
Eu revivi esse espaço virtual porque a minha psicóloga me incentivou a voltar a escrever. Inicialmente ela me disse para deixar o blog público... mas eu não acho que alguém se interessaria em ler as histórias do meu viver...
É curioso... eu, como uma professora, deveria ter mais facilidade para a oratória... mas é na escrita que eu consigo "soltar" as palavras. E, ao contrário de Babenco, que disse que "decidiu contar essa história para poder esquece-la", eu escrevo minhas histórias justamente para que sejam lembradas... enquanto eu mesma ainda lembro delas.
Uma vez me disseram que morrerei sozinha e sem memória... Então escrevo para que, quando eu não me lembrar mais de quem eu sou, eu possa, através das minhas próprias palavras, memórias e sentimentos, lembrar de quem eu fui.
Ontem, uma onda se aproximou novamente... quando me dei conta, a sombra já tentava me abraçar. Fiz algumas meditações, assisti a coisas engraçadas, escutei algumas músicas que lembravam momentos alegres e driblei, mais uma vez, meu pior inimigo: minha mente... que quis levar embora algumas memórias e a luz de Sol que me aquecia...
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Ocorreu algo recentemente que me despertou um medo que a algum tempo eu achava estar livre.
Ao ver que um homem se aproximava, peguei meu chaveiro e posicionei a chave maior entre os dedos. Nessa hora me repreendi por ainda não ter comprado uma faca própria para esse fim, mas na verdade, acho que eu não conseguiria fazer nada com uma em mãos...ainda.
Quando se aproximou, ele estava com as mãos trêmulas e eu não entendi se era porque estava entorpecido ou se era de euforia. Quanto mais próximo ele chegava, mais forte eu fechava o punho, torcendo para me lembrar, ao menos do básico, que aprendi nas poucas aulas de Krav Maga que fiz.
Tenho uma colega que disse que eu tenho que ter mais presenças masculinas na minha casa: chamar meu irmão ou algum amigo para fazer alguma visita de vez em quando. Respondi que se os homens que eu conheço quisessem me ajudar, já o teriam feito. Sou eu por eu mesma. Como sempre.
Em certos lugares, cultua-se e fala-se muito do "sagrado feminino" e das delícias de ser mulher mas, nesses mesmos lugares, pouco se fala de suas angústias. A sociedade separou um mês inteiro para cuidar de suas mulheres, mas as abandona nos outros onze. Em um dia específico distribuem rosas para todas as mulheres que adentram comércios, mas nos dias restantes, tratam apenas como uma vagina.
Numa atualidade em que vejo mulheres criticando mulheres, destilando barbáries e maldizendo os direitos que outras morreram para conseguir, me pego pensando no por quê, em pleno 2026, eu não posso me sentir segura em minha própria casa?...por que, em pleno século 21, eu fui obrigada a aguentar calada, as injustiças de outras mulheres, ditas para mim?... Por quê, num país onde a maior porcentagem é feminina, eu tenho que ter uma presença masculina se fazendo vista, como se estivesse marcando o território? Por quê tudo que sou, para essa sociedade suja, é tão insignificante quanto aquilo que posso "oferecer" ?
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Hoje haverá mais uma chuva de meteoros e detritos do Cometa Halley passarão pela órbita da Terra. Quando eu tinha "semifoco" no universo e nos seus mistérios, eu sempre me perguntava o porquê do universo ser tão lento. O Cometa Halley, por exemplo, demora 76 anos para passar novamente pela terra. Os eclipses também, demoram demais para conseguir serem vistos, ao menos aqui, no Brasil. Uma vez eu comentei que queria ver um eclipse e um colega disse que também veria.
Esse colega era dono de uma bomboniere com um cenário típico da minha infância: uma espécie de roda com vários compartimentos e, em cada um desses compartimentos, um sabor de salgadinho. Mamãe sempre nos levava na bomboniere dele e eu nunca lembrava seu nome. Todas as vezes eu fazia a mesma pergunta: "Qual o seu nome mesmo?", e ele, com toda a paciência, respondia "Washington", e todas as vezes eu perguntava mais, pelo menos, duas vezes: "O quê?!?", e ele tornava a responder. Mamãe sempre dava risada. O Washington utilizava uma cadeira de rodas e eu lembro que achava aquilo uma trapaça, pois numa corrida, é claro que ele iria ganhar! Hoje, quando meu filho diz que quer ter uma cadeira de rodas para ser o mais rápido, lembro dessas cenas.
Seguindo o nosso padrão nômade de viver, ocorreu mais uma mudança e a vida seguiu. Anos mais tarde, já na fase adulta, me mudei para uma casa próxima à bomboniere dele e me surpreendi: estava do mesmo jeito! Sem perder tempo, entrei na bomboniere, comprei um punhado de mantecal, doce que a mamãe amava e sempre comprava com ele e, ao pagar, ele me olhou. Abri um sorriso tímido e perguntei: "Você lembra de mim?" , "Claro, você está igualzinha a sua mãe! E você, lembrou do meu nome?" , "Depois de perguntar tantas vezes não dava pra esquecer, né Washington!". Demos uma risada gostosa que se desfez quando ele perguntou sobre a minha mãe e eu disse que ela havia falecido a muitos anos. Vi os olhos dele marejarem e senti os meus com a mesma vontade. Desse dia em diante, sempre que podíamos, paravamos para conversar quando eu comprava algum docinho, ou simplesmente quando eu passava em frente à sua bomboniere. Ele era músico e, aos fins de semana, sempre havia uma roda de música na calçada frente ao seu estabelecimento. Ele me via passando com o violino nas costas e me perguntava quando íamos tocar juntos. Eu dizia que quando eu fosse uma musicista ao nível dele, puxaria um banquinho e faríamos um dueto. Entre as muitas conversas e sorrisos, houve a vez em que haveria aquele eclipse lunar. Fazia tempos que não havia um eclipse que poderia ser visto no Brasil e ele disse que veria o eclipse e tiraria uma foto. Eu disse que veria também.
Um dia eu passei em frente à bomboniere e estava com as portas fechadas. Estranhei, mas segui em frente. No dia seguinte fui até lá para comprar algum doce. Fechada novamente. E ficou fechada por cerca de um mês. Eu não conhecia ninguém da família dele, nem via ninguém na bomboniere, organizando ou limpando. Depois de cerca de um mês, passei em frente e vi que estava aberta... Fui até lá e me deparei com uma mulher, que disse ser cunhada dele. Eu perguntei o que houve e, com lágrimas nos olhos, ela disse que um dia ele passou mal, foi para o hospital, foi medicado e voltou para casa, porém o mal estar continuou. Ao retornar para o hospital e fazer alguns exames, seu intestino foi perfurado. Ele teve uma infecção e faleceu. O hospital em questão acumulava processos e casos do tipo. Tinha o nome de Alexandre Zaio mas, entre a comunidade, era "carinhosamente" chamado de Açougue Zaio. Lembro que fiquei mais tempo que o comum tentando assimilar o que ouvi. Como assim, ao fazer um exame perfuraram seu intestino? Como assim, dentro de um hospital ele teve uma infecção, decorrente de um erro médico e morreu? Como assim ele morreu? Como eu me despedi daquela mulher e da bomboniere é um trecho que se apagou da minha memória, mas lembro que, depois da morte dele, houveram alguns "shows" na bomboniere em sua homenagem. Pouco tempo depois a bomboniere foi vendida...virou um bar, depois uma loja de produtos de limpeza e, por último, uma tabacaria. Depois que a tabacaria foi à falência, virou um lugar vazio, se deteriorando com o pesar do tempo. Continua assim até hoje.
Eu vi o eclipse, tirei uma foto e pensei nele. Me peguei pensando que, na verdade, não é que as coisas no universo demorem tanto, é que o tempo, lá, corre diferente. Li, algumas vezes, que o universo é eterno, porém essa é uma teoria que já foi derrubada...mas gosto de pensar que, assim como somos feitos de poeira estelar, voltamos para as estrelas, para o universo, quando partimos. Na noite daquele eclipse, pensei se as partículas de estrelas que a mamãe e o Washington viraram, estavam admirando aquele espetáculo comigo.
Hoje haverá uma chuva de meteoros. Quem sabe eles estejam no rastro de detritos que o Halley deixará? Sei que é infantil, mas é simples e bonito pensar que, caso eu consiga admirar os meteoros no céu, possa ver aqueles que foram especiais para mim também.
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| Tirei essa foto para você. Eclipse lunar de 2011. |
domingo, 18 de outubro de 2026
"O mundo é naturalmente mal." Foi o que disse a escritora Ana Paula Maia em uma entrevista recente.
A alguns dias a filha de uma vizinha bateu na minha porta. Quando abri, me assustei com a cena daquela menina pedindo ajuda, com a mão ensanguentada, ao ter se cortado com o vidro do espelho. Eu havia acabado de terminar a primeira parte da faxina, então o piso ainda estava úmido e as coisas ainda estavam fora do lugar. Disse para entrar e levei-a até o banheiro, para limpar o ferimento e fazer um curativo com os poucos materiais que tinha em casa. No meu banheiro, a menina passou o olhar pelos produtos de cuidado e beleza, mas fixou os olhos nos meus "brinquedos de treino", que estavam de molho. Senti que ela quis perguntar o que eram aquelas bolinhas e pequenos bastões. Chamei a atenção dela para que apertasse a mão, coloquei algodão e cobri o melhor que pude. Cerca de 40 minutos depois, a mãe chegou e a levou ao hospital, onde levou dois pontos. A mãe me agradeceu por ter ajudado sua filha e eu fiquei feliz por, mesmo com o desajuste do susto, ter corrido tudo bem.
Assim como fez aquela menina, batendo na porta para pedir ajuda eu, muitas vezes, quis fazer o mesmo. Mas o medo que cerca uma criança não me permitiu e meus pedidos silenciosos em olhares não foram compreendidos.
Às vezes acho que meu pai deveria ter sido mecânico. Na garagem ou na calçada em frente de casa sempre havia algum carro que ele estava tentando consertar. A casa vivia cheia de peças de carro e cheiro de óleo e gasolina. Consequentemente, sempre haviam colegas do meu pai por perto. Houve um colega que ficou pouco tempo. Ele tinha um ar estranho, como nesses filmes em que o serial killer fica por uma temporada na cidade e depois vai embora... Ele estava arrumando um carro para o meu pai, que o autorizou a adentrar a garagem e fazer os consertos, mesmo que meu pai não estivesse em casa. Uma vez minha mãe estranhou o fato dele passar muito tempo embaixo do carro, achou que ele estava roubando uma peça ou a danificando propositalmente. Um dia eu estava em frente ao portão de casa e aquele homem me chamou. Disse que precisava dar um recado ao meu pai e me mostrar algo... eu tinha oito anos.
Como ocorre com as abelhas, ao que os zangões sentem seu cheiro e travam uma briga (muitas vezes até a morte) para acasalar, creio que assim, também, acontece com crianças vítimas desse tipo de crime. Uma vez eu estava conversando com uma colega que tinha recém assumido um cargo como assistente social. Ela estava trabalhando com famílias disfuncionais e disse que é corriqueiro uma criança vítima de ***** se tornar rebelde, ter comportamento errante, se tornar depressiva ou hipersexualizada. Após aquele ocorrido, tornei-me vista por possíveis criminosos daquele tipo. Houveram outras situações como aquela e, talvez por conta do medo do que escutei, eu não tive coragem de falar para alguém e pedir ajuda. Ouvi que se eu abrisse a boca, minha família seria morta. Eu, então, me calei. Tal como a personagem de Kristen Stewart, no filme O Silêncio de Melinda. Durante quase 30 anos, fiquei em silêncio. Hoje sei que a maioria daqueles pedaços de lixo não vive mais, não pisam mais nessa terra. Não consigo esconder o sorriso e a satisfação ao pensar que, possivelmente, o fim deles foi cruel.
Foi numa sessão de terapia que eu fui às lágrimas mais uma vez, porém levando às lágrimas, também, a minha psicóloga. Seu nome era Caroline e eu gostava muito dela. Gostava tanto que, para ela, abri pela primeira vez o que fizeram comigo. Ela não quis mais me atender depois que contei e essa atitude me doeu muito na época. Hoje, entendo que a história da minha vida a afetou mais do que deveria ter afetado e ela, simplesmente se protegeu. Para se proteger, ela precisou me abandonar. Ela disse que, sempre que eu pudesse, deveria falar sobre, pois o ato de falar torna mais fácil a cura. Porém, a minha superação, a dita cuja cura, começou antes mesmo de conseguir, finalmente, abrir a boca e falar.
Desde os ocorridos na minha infância, fui perseguida pelo pensamento de que as pessoas, instintivamente tem esse comportamento feroz para se satisfazerem. Consequentemente, na minha mente fragilizada reinava a ideia de que o sexo tornava as pessoas más. Eu não conseguia compreender porque algo que tornava as pessoas ruins era tão importante.
A virada de chave foi quando li uma reportagem com uma sexóloga e fisioterapeuta. Não me recordo o nome dela, mas lembro que, tempos depois, assisti a uma entrevista dela no programa do Jô Soares. A forma como aquela mulher falava, a postura dela, o jeito que ela deixava um assunto, até então tão pesado para mim, leve, me acendeu. "Quando eu crescer quero ser como ela!" , pensei. Com a filosofia que ela pregava, entendi que o mal que me fizeram não podia ditar a forma que eu seguiria a minha vida. Lembro da primeira vez em que, após ler vários artigos e comprar um dos vários acessórios do kit que ela vendia, senti o torpor no corpo e o ar faltar: "Uau, então é isso que todo mundo sente!". Os "brinquedos" e acessórios passaram, então, a fazer parte da minha vida.
Um dos ensinamentos que acho mais bonito na filosofia do pompoarismo é que não existe a cobrança para conseguir fazer tudo rapidamente. Não há isso de fazer muito ou pouco... cada mulher está no seu próprio estágio e aprendendo mais a cada dia e a cada exercício. Assim, também, não existe mais o pensamento das Gueixas, de ter a obrigação de satisfazer o homem e entregar tudo. É a mulher que, melhor que ninguém, conhece seu corpo. O prazer do parceiro é apenas consequência. E não, não é obrigação entregar uma performance inesquecível todas as vezes apenas por obrigação ou medo de "segurar" alguém. Se o sexo, para as mulheres, está intrinsecamente ligado às sensações e sentimentos, como entregar uma baita performance se você não estiver bem?
Após alguns anos dentro daquilo que deveria ter sido um casamento, eu simplesmente desisti. Desisti de tentar agradar, de tentar fazer dar certo, desisti dele e, tristemente, desisti de mim. Não tinha mais vontade nenhuma de conhecer esse mapa tão majestoso que é meu corpo. Após alguns meses do término, mais especificamente no mês do meu aniversário, me dei um presente especial... comprei o kit que, tempos depois, a menina veria de molho em meu banheiro, sendo higienizado para ser utilizado mais uma vez e me lembrando, todas as vezes, da mulher rara e incrível que aquela doce e machucada menininha se tornou.
sábado, 17 de outubro de 2026
Meu tio é um daqueles muitos meninos que tiveram que, desde cedo e sempre, segurar o choro. Se tornou um homem adulto com aquelas feridas encobertas pela poeira da vida, tal como os soldados do esquadrão Ghost, de Call of Duty. É mais um dos vários homens de sua geração e das posteriores, que fingem não sentir, por medo de demonstrar fraqueza. Perante uma situação triste, mantém a postura no coletivo para, longe dos olhos alheios, deixar escorrer dos olhos gotas salgadas.
Quando mamãe partiu, tio Orlando pegou um vôo de Sergipe até São Paulo, para enterrá-la. Meu pai estava bêbado demais, desesperado demais e com remorso demais para resolver tais questões. Um dia, vi meu tio sair do banheiro secando os olhos e seu nariz estava vermelho. Nunca o vi chorar, mas não é porque não vemos algo, que não aconteça.
Ontem foi seu aniversário, mas ninguém lhe deu os parabéns...pois no mesmo dia em ele comemora a vida, precisou enterrar seu pai. Ao perguntar para ele como ele estava, ele me respondeu que já vinha se preparando para esse momento. Um ator que gosto muito, Willem Dafoe, disse uma vez: "Meu objetivo é aceitar que estamos morrendo e lidar com isso de maneira positiva" . Creio que meu tio segue essa linha de raciocínio também.
As pequenas idiossincrasias da vida me provocam constantemente... Nessa sequência de sonhos estranhos que venho tendo, sonhei com meu avô e minha mãe e, próximo à eles, estava meu tio. Quem sabe, em breve, eu possa rever meu tio e o que restou da família e ouça histórias de meu avô e da mamãe, dessa vez, sem a necessidade de esconder lágrimas que, talvez, queiram cair.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Hoje, 15 de outubro é dia dos professores e eu não tive felicitações de alunos, como a alguns anos atrás. Alguns colegas sabem que sou professora, mas também nunca se deram ao trabalho de me felicitar enquanto eu estava em atividade, quem dirá agora, a quase 3 anos longe da profissão. Eu, realmente, nunca liguei para presentes físicos, mas eu sempre valorizei que datas importantes fossem lembradas.
Ontem, numa conversa com meu filho, ele me perguntou do que eu gostaria de trabalhar. Eu respondi que gostaria muito de voltar a lecionar, mas não tenho mais gosto pelo ambiente escolar e suas peculiaridades. Eu, como uma professora fora do comum, sempre valorizei o aprender a sentir. Em minhas aulas, desde o berçário, havia momentos e brincadeiras de escuta ativa e interpretações. Porém, em um mundo onde o sentir é visto como fraqueza, profissionais como eu são desmerecidos em ambientes onde se prioriza o fazer e o ser...como se, para ser e saber, não fosse antes necessário, sentir...
Rubem Alves, uma vez, pensou: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais” . Eu leio essa frase e reflito que, em certo grau, somos todos professores de algo ou de alguém na vida. Em muitas conversas com o meu filho, quando ele pensa sobre as avós e seu gatinho, que agora "são estrelinhas", ele cita que não quer que eu morra nunca. Eu digo à ele que quando tocamos profundamente alguém, apenas uma parte de nós morre... a outra continua viva em todos os que foram iluminados com a nossa presença e, assim, não será diferente comigo. Viverei para sempre nele.
Hoje, no dia dos professores, um professor que minha mãe amou muito e que viveu nela, partiu. Seu pai. Meu avô. Eu estava fazendo planos para, em dezembro, conhecê-lo e levar meu filho para conhecer seu bisavô. Não deu tempo. Ele terminou a vida sem memória, somente com lapsos do que, um dia, viveu. Mas eu lembro que, uma vez, minha tia mostrou uma foto minha para ele e ele abriu os olhos dizendo "Meirinha!" . Meirinha é como a família de minha mãe a chamava...
Diferentemente da minha avó, sei que meu avô me abraçaria... mesmo que pensando eu ser outra pessoa... aquela a quem ele ensinou e que o ensinou também... aquela que, nele, viveu...
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Meu pai, talvez com a sabedoria passada via oral pelo lado dele da família para mim, me deu algumas orientações, uma vez, de como lidar com os sonhos que temos ao dormir. Dentre as várias orientações, ele disse que seria interessante eu ter uma caderneta, sempre, ao lado da cama, para anotar os sonhos. Me orientou, também, a como proceder com sonhos ruins e como fazer para tentar lembrar dos sonhos, antes que eles escapassem da memória.
Em um período da minha vida, tive um colega de trabalho interessante. Eu gostava de ouvir suas conversas e ele sempre foi muito educado comigo, ao menos na minha frente. Gostava dele e gostaria de ter tido mais conversas, porém a vida aconteceu e eu escolhi sair da empresa por algumas razões, entre elas, um emprego novo na minha área de formação.
Uma noite, eu tive uma sensação estranha, porém que eu conhecia bem. Uma pessoa de uma das igrejas que frequentei na infância, dizia que eu tinha alguns dons divinos, como o dom da profecia... anos depois, uma colega disse que eu tenho um grau elevado de mediunidade. Uma vez, em um terreiro de umbanda, disseram que eu tenho muito poder com as mãos e precisava usá-las mais. Não sei dizer se são dons ou apenas traços do transtorno com o qual fui diagnosticada mas que, de um tempo pra cá, tenho questionado se realmente possuo. Sei que tem uma explicação científica para isso, mas eu ainda não tive interesse em saber mais sobre. A tal sensação à qual me referi, ocorre em momentos específicos, como que um prenúncio de algo, de algumas situações que irão acontecer. Na mesma noite em que tive a sensação, sonhei com aquele colega. E, no dia seguinte, minha amiga comentou que ele havia falecido. Fiquei triste e, ao mesmo tempo, assustada. Não foi a primeira vez que aconteceu e nem foi a última.
Sonhei com aquele colega mais uma vez, alguns meses depois, e esqueci. Anos mais tarde, mais especificamente no ano em que escrevo esse texto, sonhei com ele novamente: um motoboy me chamava e dizia que tinha uma encomenda para mim, daquele colega. Eu acordei subitamente. No dia seguinte, me arrepiei ao, no caminho da escola do meu filho, escutar um homem chamando por outro...o nome que ele disse era o mesmo apelido que o meu colega utilizava.
A alguns dias, sonhei novamente. O mesmo motoboy do sonho anterior me perguntava se eu já havia pego a encomenda que o meu colega mandou...ao fundo, estava tocando uma música do The Doors. Porém, nesse sonho, eu não acordei após a pergunta...fui "levada" para outro momento no sonho, dessa vez, na companhia da minha amiga de infância e de outra amiga que, na verdade, é como uma segunda mãe para mim. No sonho, em certo momento, a minha segunda mãe se afastava e esperava por mim em outro ambiente... Eu acordei com medo e lágrimas nos olhos... segui uma das orientações que recebi, de como proceder quando tenho um sonho que não quero que se torne realidade, que não quero que aconteça aqui, no "mundo real" e, também por isso, somente agora conto sobre ele.
A minha amiga está doente...e eu estou com medo. Todos os dias, em minhas orações, peço que ela melhore. A vida já me levou uma mãe...por favor, que eu não perca a minha segunda mãe... não agora...
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Minha mãe tinha o apelido de Estela. Estelinha, para os mais íntimos. Um dia ela recebeu o telefonema de um de seus muitos amigos e, de longe, eu consegui ouvir o diálogo:
- Estelinha, o Jesus morreu!
- Acho que você está um pouco atrasada, ele já morreu há dois mil anos.
O Jesus ao qual Ruth, a amiga da mamãe, se referia, era um empresário do ramo editorial. Tinha um sobrenome latino, mas não me recordo muito bem qual era. Esse homem, que de divino só tinha o nome, foi patrão da minha mãe, quando ela trabalhou como vendedora de livros porta a porta, para uma editora chamada Sivadi. Nessa época, ter uma estante com vários volumes de livros de capa vermelha, era sinônimo de inteligência, integridade e bem aventurança.
O Jesus aqui apresentado era um homem cruel. Sua empresa de fachada lucrava milhões com o suor que pingava dos rostos de seus funcionários. Indo contra a lei do salário mínimo, os funcionários só recebiam por comissão, caso atingissem a meta de vendas. Mas, todos os dias, tinham que trabalhar. A Perua Kombi estava, diariamente e britanicamente em frente às casas dos vendedores, para buscá-los e, assim, adentrar as ruas no intuito de vender.
A mamãe sempre foi uma mulher extremamente cativante, alegre, divertida e doce. Ela, dificilmente, vendia...mas ganhava muitos amigos e presentes por onde passava. Ela nunca levava marmita e, por vezes, possíveis compradores notavam isso, ao observar que todos os vendedores pediam para ter suas marmitas aquecidas, menos ela. Era comum ela ganhar comida. A partir de um momento, quando não tínhamos aulas na escola, ela passou a nos levar com ela para o trabalho, prática, até então, comum entre os funcionários. Ela dizia que era porque não tinha com quem deixar os filhos mas, hoje, eu sei que era para dividir conosco as marmitas e lanches que ganhava. Uma vez, não lembro por qual motivo, somente eu fui ao trabalho com a minha mãe. Não me recordo onde meu irmão estava. Naquela vez a mamãe foi às ruas para vender e eu passei o dia dentro da Kombi, com a supervisora da equipe. Ao ver que eu estava com fome, ela comprou uma coxinha e um moranguete para mim. Eu realmente estava com fome e comi. Quando eu, finalmente, reencontrei minha mãe, a supervisora disse que havia me dado um lanche. No caminho de volta para casa, já fora da Kombi e das instalações da editora, mamãe me perguntou, de cabeça baixa, se eu havia deixado um pedacinho do lanche para ela. Eu paralisei, abaixei a cabeça e disse que havia comido tudo, e senti meu coração apertar e um nó se fazer na minha garganta. Hoje, enquanto escrevo, penso que essa cena, esse recorte da minha vida e da vida da mamãe, se assemelha a um trecho do livro O Sonho no Caroço do Abacate em que, de tanta vontade, a personagem comeu o abacate e o seu caroço.
Houve uma vez em que o Jesus queria entrar para o ramo dos livros acadêmicos. Ele, então, organizou uma espécie de concurso, onde quem se propusesse, deveria pesquisar, escrever e organizar um importante livro a ser utilizado pela área da enfermagem. O prêmio seria alguns dias de folga e o valor de 150 reais, uma grande quantia entre os anos de 1997 e 1998. A mamãe entrou no concurso, estudou muito, frequentou muitas bibliotecas, passou noites em claro e, no fim, ganhou. Ela escreveu, organizou e editou um livro que ganhou o nome de "Grande Compêndio de Enfermagem".
Ao pagar o prêmio, Jesus prometeu que o nome da minha mãe estaria como autora. Alguns meses se passaram e o livro foi publicado. No espaço onde fica o nome do autor, em que deveria estar o nome da minha mãe, estava o nome dele. Lembro que notei o clima amargo que se formou entre minha mãe e seu patrão, quando ela nos levava ao seu trabalho. Tenho lembranças de vê -la pela janela de vidro da sala da diretoria, tendo conversas calorosas. Pouco tempo depois, ele disse que os funcionários não poderiam mais levar seus filhos e minha mãe soube que era para atingi-la.
Uma certa noite, minha mãe chegou em casa chorando muito. Passaram-se alguns dias e eu notei que ela não estava mais indo trabalhar, chegando até a se esconder em casa, para que o motorista da Kombi da empresa não a visse. Eu fiquei feliz, pois, finalmente, tinha a minha mãe em casa.
Dias depois, minha mãe recebeu uma intimação: Jesus estava a processando por uma série de acusações, entre elas, abandono de emprego e a recusa de pagar aluguel. Sim, nós morávamos em uma das muitas casas que ele possuía e, além de trabalhar para ele, mamãe tinha que pagar aluguel. Nisso, dentre várias outras coisas, acho que sou parecida com mamãe: ela tinha seus momentos de doçura, mas também era repleta de malícia e sagacidade. Ela guardou todos os documentos da empresa e pôde, ao longo do processo, provar que a assinatura dela foi falsificada, que ela pagava sim os aluguéis e que era submetida a condições insalubres de trabalho. Mamãe ganhou a causa e ainda pudemos morar na casa por cerca de três meses.
Naquela tarde em que a Ruth deu a notícia para a mamãe, me bateu uma curiosidade e perguntei o que ocorreu para que a mamãe simplesmente deixasse de trabalhar na Sivadi. Ela, sem me olhar, disse que foi conversar com o Jesus para que, ao menos, ele pagasse uma parte dos lucros da venda do Compêndio para ela. Afinal, ela teve todo aquele trabalho. Ele respondeu com outra pergunta: "Que trabalho você teve? É o meu nome que tá lá! Sua cadela!" . Mamãe, com seus 1 metro e 47 centímetros, disse que saiu de si: avançou nele, o agrediu, cuspiu nele e o xingou de nomes que ela nem sabia que conhecia. Reparei que ela estava sorrindo, porém a expressão dos olhos era triste. Ela já estava doente nessa época e, acho, gostaria que as coisas tivessem sido diferentes...mas ela sabia que não tinha mais tempo para pensar sobre isso. Então ela, com o sorriso lindo que ela tinha, levantou dizendo "Não é porque morreu que vai ser santo né!", andou devagar até a sua poltrona, que ficava na sala ao lado de sua estante de livros, pegou seu novelo de lã e agulha de crochê, colocou os óculos e começou, mais uma vez, a crochetar um caminho de mesa...mais um dos inúmeros que a vi fazendo e que, hoje, não existem mais...assim como o compêndio que ela escreveu...
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Eu e minha amiga havíamos combinado de tomar um vinho e jogar conversa fora, após ela maldizer o namorado e terminar com ele. Estávamos acertando tudo a cerca de dois dias e, na noite anterior, estranhei o fato de eu convidá-la para dormir na minha casa e ela responder com um não curto e seco. Brinquei, dizendo que eu não tinha a intenção de seduzi-la, ela deu risada e não disse mais nada. Pressenti o que aconteceria e assim foi: no dia seguinte, comprei o vinho e ela disse que tinha um compromisso que havia esquecido. Pensei que era muito melhor ela ser sincera e dizer que estava triste por conta do término e queria ficar sozinha. Horas depois vi o carro do namorado estacionado e ouvi as risadas dos dois e, então, entendi.
Nesse mesmo dia, lembrei-me de um show que haveria numa praça, perto de onde moro. Após tomar, sozinha, a segunda taça do vinho, me troquei, ajeitei o cabelo, me maquiei, me perfumei, calcei um coturno e saí de casa. Assim que fechei o portão, avistei a cachorrinha que balança o rabo toda vez que me vê...me abaixei, acariciei e conversei com ela. Senti o sol amornar minhas costas e caminhei em direção à praça.
Haviam, ainda, poucas pessoas quando cheguei. Avistei a barraca de sucos de uma senhora que estava na praça em um evento passado, em que eu também fui. Comprei um suco dela e ela me agradeceu como se eu a tivesse salvo. Depois me dei conta de que ela era uma exceção à regra: vendendo sucos onde as pessoas só queriam álcool. No palco estava um músico solo, tocando músicas do Capital Inicial. A aparência dele me lembrou um colega de faculdade, que sempre chegava bêbado nas aulas e brigava com a professora. A professora realmente tinha um saber raso, mas não justificava o fato dele se embebedar e atrapalhar a aula, prejudicando os colegas que tentavam aprender algo.
Na última música que ele tocou, uma criança brincou com bolhinhas de sabão. Meu olhar seguiu as bolhas e uma delas me circundou e depois alçou vôo, até próxima às árvores. Vi as folhas balançando e lembrei dos pedidos que fiz soprando um dente de leão, junto ao meu filho, e que ainda estão por se realizar. Ao mesmo tempo, olhei para o céu e, internamente, agradeci por tudo.
Quando a apresentação dele acabou, a staff do evento sintonizou no rádio e começou a fazer os testes de som. Lembrei das inúmeras vezes em que trabalhei nos bastidores e em como eu amava aquilo. O palco é bom, mas o fazer acontecer me cativa. Subiu a segunda banda e a equipe estava com dificuldade de ajustar o som. O vocalista estava bravo. Eu os olhava coçando a cabeça em frente à mesa de som e pensava "é só abaixar o da guitarra e subir o do microfone!" . A baixista estava acompanhada do filho adolescente, que resmungava enquanto a mãe o pedia para sentar em frente ao palco. Mentalmente, eu também resmunguei e disse àquele adolescente chato para ele tratar bem sua mãe, pois logo ele estaria chorando por falta dela.
Subitamente, um sentimento de melancolia me atingiu. Dei um gole no suco, olhei para o raio de Sol que se fazia presente e olhei para o lado. Eu estava sozinha. Na verdade, eu sempre estive sozinha. Mas seria bom ter uma companhia, ao menos de vez em quando. Alguém que gostasse e fizesse questão da minha presença, que quisesse, realmente, passar um tempo com o meu ser... não por pena, nem por obrigação... mas por realmente gostar de mim e se sentir bem com a minha companhia. Um solo de guitarra cortou meu pensamento e eu olhei para o palco...um guitarrista com a mão com deficiência estava tocando. Olhei para ele e sorri, empaticamente pensando em quantos obstáculos ele ultrapassou para poder, naquele momento, tocar tão bem. Provavelmente ele não teve um infância pobre nem passou por extremas dificuldades... talvez tenha vindo de uma família estruturada que o permitiu ter acesso a bons tratamentos, aulas de música e tudo o mais. Mas, talvez, fosse justamente o contrário e a música foi, realmente, uma jornada do herói, para ele.
Gravei um trecho da banda tocando Livin' on a Prayer e mandei para uma amiga que é fã do Bon Jovi, seguido de uma mensagem bonita, que só iria chegar ao celular dela quando eu chegasse em casa, tal como a carta do pai ao filho, em A garota das laranjas.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Na adolescência, um dos vários sonhos que eu nutria e tentava alcançar era o de me comunicar em vários idiomas. Nas minhas "listas de objetivos", sempre havia a parte de "ser poliglota até os 30 anos". Em pouco tempo farei 40 e ainda não alcancei essa meta.
A arte de se comunicar me fascina. Antes de existirem os aplicativos tradutores, eu lia livros em diversos idiomas. Não é difícil ler algo em um idioma que não é o seu nativo. Uma vez entendido como funciona a junção e pronúncia das palavras, você pode ler o que quiser. Compreender o que você está lendo que é outra história, outra questão, a chave. Chave essa, que eu não tinha.
Houve uma época em que a faculdade de educação da USP oferecia, semestralmente, minicursos de idiomas, até então, pouco procurados. Uma colega fez o minicurso de grego e, hoje, é uma professora de renome desse idioma. Eu sempre quis fazer o curso de latim, mas as vagas eram preenchidas antes de chegar na minha vez. Uma vez, então, me matriculei para estudar francês. Foi uma fase legal! Eu fiz uma colega no curso, cuja mãe também estudava lá, porém no curso de espanhol. Elas moravam na mesma região da cidade que eu, porém num bairro chamado Guilhermina Esperança e, nos dias de curso, me davam carona. A mãe dela tinha um Santana verde que sempre quebrava na volta do curso, na avenida Rebouças. Lembro que eu admirava aquela mulher, que brigava com os homens que a viam consertando seu carro, pois achavam absurda a cena de uma mulher não precisar de ajuda com seu veículo.
Ontem, eu lembrei de uma frase que, na época, li em francês e me identifiquei. Lembro - me, de a ter colocado como "subtítulo" no meu perfil do Orkut, na época. Época em que o Orkut só permitia publicar 12 fotos... Hoje, não me lembro mais como essa frase é em francês. Ao lembrar dessa frase, percebi que a minha essência sempre esteve ali, presente.
"Eu não sei, mas eu sinto. Eu não sou, eu estou."
domingo, 20 de setembro de 2026
Anteontem, após um acontecimento do dia, me veio um pensamento de que eu parecia estar na idade medieval e só me faltavam as histórias de dragões.
Eu fui uma criança fora da curva. Enquanto as menininhas da minha idade brincavam de casinha e com suas bonecas, eu me imaginava lutando como num filme do Bruce Lee. Com as poucas bonecas que eu tive, brincava de lutinha, ao invés de casinha. Anos depois, enquanto as outras meninas estavam roubando as maquiagens de suas mães, eu estava brincando de carrinho de rolimã.
Enquanto elas eram fascinadas por unicórnios, meus olhos brilhavam com filmes de dragões. Anos mais tarde desenvolvi um fascínio por dragões de komodo, depois de ver um documentário da TV Cultura sobre "seres mágicos da vida real".
Os filmes de dragões que assisti na minha infância tinham como enredo a famigerada jornada do herói. Sempre, em certo momento da obra, o herói encontra sua sombra, o dragão, e deve escolher lutar com ele ou contra ele. Criador e criatura. Luz e sombra lutando, ou não, pela mesma causa.
Me veio uma vontade súbita...acho que está na hora de me render aos "Contos de gelo e fogo".
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
domingo, 13 de setembro de 2026
"O brilho das estrelas que você vê no céu pertencem ao passado, e só agora chegam à sua retina."
Acho que essa é uma das várias suposições acerca do universo que, na realidade, não são bem assim como são faladas. A estrela que brilha, não necessariamente está morta. É como se fosse o gato de Schrödinger do universo: para descobrir se ela vive ou morre, você terá que ir até ela.
Em meus anos como professora, ensinei a magia da música para muita gente. Hoje, como se é comum de acontecer, ao me verem despercebida, meus antigos alunos gritam "oi professora!". Outro dia encontrei um ex aluno que me disse que as minhas aulas eram as favoritas dele. Abri um sorriso que continuou estampado no meu rosto durante alguns segundos, tempo que levou para aquele menino, hoje quase um adolescente, sumir no horizonte, onde cruzou a esquina para ir embora.
Houve uma aluna, certa vez, que chegou na escola sem saber se comunicar em português. Seu país de origem era a Síria. Ela era fluente em inglês, mas eu pouco podia fazer para me comunicar com ela. Acionei alguns "intérpretes" até que nós, finalmente, superamos a barreira imposta como castigo divino aos homens: a barreira do idioma. Contudo, ao passo que o idioma é uma barreira, a arte, para mim, sempre foi ponte. Sem saber escrever na minha língua nativa, aquela menina se esforçava constantemente para aprender a arte de combinar os sons de sua alma. Sempre me doeu não poder dizer adeus à ela, em seu último dia de aula.
Eu ouvi falar que ela e sua família faleceram, talvez por consequência dos inúmeros conflitos na região em que estavam fazendo morada. Não sei. Creio que nunca saberei. Mas, talvez como uma última mensagem que ficou presa esperando para ser recebida, hoje encontrei uma cartinha que ela, com tanta simplicidade e carinho, me deu. No papel arrancado de sua agenda, ela se esforçou para escrever o nome das notas que nos uniam.
Ao lembrar dela e de sua possível passagem, a melancolia tomou conta dos meus pensamentos. Eu tive vontade de colocar um filme sírio para assistir mas, hoje, eu não queria assistir a um filme sozinha, mais uma vez... Então cantei uma música pensando naquela menina que não entendia minhas palavras, mas se esforçava para entender meu coração.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
"Quando se planta uma semente, você não vê as raízes se formando e se conectando ao solo."
O meu pai, apesar de péssimo com outros seres humanos, era bom com as plantas. Tinha a "mão verde", como se diz na sabedoria popular. Uma vez eu estava brincando sozinha com uma bola no quintal e, por acidente, a bola bateu num vaso de gesso, que foi ao chão e se partiu. Eu tentei "consertar", com a forma que as crianças consertam as coisas e, obviamente, não funcionou. Meu pai percebeu. Ele ficou tão bravo por ter quebrado o vaso que parecia até que eu tinha quebrado a perna de alguém...
Meu pai tinha muitas plantas. Atualmente, sei que isso foi herdado dele pela minha avó paterna. Hoje, olhando como uma adulta, talvez eu o classificaria como um acumulador de plantas... Acho que o desejo dele era de ter um jardim porém, infelizmente, a realidade de quem mora de aluguel dificilmente permite isso.
Dentre as tantas plantas que meu pai cultivava, uma ele disse que era minha. Ele disse que era um Benjamin e, anos depois, eu descobri que o nome correto daquela, até então pequena, árvore é Figueira Benjamina. Um dia, creio que para eliminar alguns vasos, antes de mais uma mudança, meu pai colocou algumas das plantas em sua Variant azul calcinha, incluindo o meu Benjamin, e me levou junto até um local próximo de onde morávamos, o Viaduto Itinguçu. Nesse viaduto, perto de uma de suas pontas, havia um espaço onde, na época, só havia terra. Meu pai estacionou o carro e descemos. Ali, naquele espaço sem vida, distribuímos alguns dos únicos seres viventes que meu pai respeitava e tinha tanto carinho e cuidado. Plantei minha primeira árvore, o meu Benjamin, naquele lugar.
Hoje, durante um momento específico numa oficina de escrita científica, refleti, mais uma vez, sobre a sabedoria das árvores. Os indígenas, como a minha bisavó, acreditam que as árvores são espíritos vivos, donos de uma sabedoria que transcende gerações. Muitos pajés relatam conversarem com os espíritos habitantes nas árvores, pedindo conselhos, ajudas e tudo o mais. E é engraçado, em muitos momentos da minha vida eu fiz comparações de certas situações com as árvores, não pelo cunho espiritual, mas pela significância de suas vidas. A forma silenciosa que elas germinam, criam raízes, crescem e florescem. Começam tão frágeis e terminam tão majestosas. E assim são as coisas que importam na vida, não é? Mesmo que não sejam majestosas, mas desde que tenham raízes fortes e aguentem as tempestades e as mudanças do viver.
Tem uma frase que eu vi um dia e que eu gosto muito, que diz: "O amor é como uma árvore, que floresce onde seria mais fácil desistir." O amor de meu pai por suas plantas, floresceu num canteiro de um viaduto. O amor da mamãe floresceu em seus filhos e em todos que ela tocou. Onde o meu sentir florescerá? Será que algum dia, as sementes do meu viver florescerão em lugares improváveis?
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Esses dias choveu e eu fui até a chuva, como num ímpeto inconsciente de me fundir, juntar o meu calor com as gotas frias e vê -las ferver. Ao contrário disso, fui eu quem ficou fria e com partes molhadas.
Não me lembro quando iniciei essa tradição... tenho a impressão de que foi no último ano de vida da mamãe mas, sempre, na primeira chuva do ano, eu tomo banho de chuva. É como se quisesse que as águas do céu carregassem tudo o que passou e limpassem minha memória. Sei, chega a ser um pouco infantil.
As mini crônicas da minha trajetória estão, todas, registradas no livro da minha mente que, provavelmente, terá as palavras que foram escritas apagadas pelas águas que levarem o meu ser embora. Talvez a minha mente sofra uma ruptura, caso eu chegue à velhice. Talvez, num dia comum, eu escorregue, bata a cabeça e perca a memória, perdendo, também, essas histórias. Algumas histórias eu compartilhei com pessoas queridas. Outras escrevi em diários físicos e, mais algumas, estão nesse diário virtual, para que sirva de fonte para as pesquisas da inteligência artificial... Acho que a única leitora deste endereço virtual.
Eu sempre quis ler. Na primeira infância, assistia a cenas em que apareciam um livro ou alguém lendo, e era inundada por uma vontade de fazer o mesmo. Lembro do primeiro livro que ganhei na vida: "O ratinho e a tormenta", um livro infantil que contava uma história bíblica. Nesse dia, minha mãe nos levou até uma livraria e, numa seção específica, nos disse para escolher um livro cada um. Eu queria um livro pop up, mas sabia que mamãe não poderia pagar... então escolhi o livro do ratinho. Curioso, eu nunca tive medo de ratos, nem em ilustrações. O detalhe é que eu ainda não sabia ler. A mamãe que lia para mim, enquanto que meu irmão já lia seus livros sozinho. E eu o admirava muito por isso! Ele sempre foi extremamente inteligente, quase uma enciclopédia ambulante. Não posso dizer o mesmo quanto à esperteza...
Eu tive muita dificuldade para aprender a ler. Somente com 10 anos eu consegui ler com fluidez, consciência e interpretação. Fiquei extremamente feliz ao ver que meu filho, com apenas sete anos, deu um salto em direção ao mundo mágico da leitura! Ele sabe ler. Mamãe ficaria tão orgulhosa dele, assim como eu estou!
Desde que eu aprendi a ler, os livros me foram companhia. Já li tantos livros que tenho dificuldade em listar no Skoob. Na verdade, eu deixei de listar... Tenho alguns livros favoritos que sempre estarão na minha memória. Mas sabe, de todos os livros no mundo, acho que o livro da minha vida é um dos mais lindos que leio e já li. Tenho uma colega que diz que minha vida dá um livro bonito e triste ao mesmo tempo, mas com uma grande história de superação.
Eu sei, caso as águas não apaguem a tinta da caneta que escreveu as linhas da minha vida... minha história terá um final feliz.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Hoje, após certo acontecimento do dia, me lembrei de uma das várias discussões que tive com meu irmão, numa época muito conturbada... A frase que ele me disse em uma determinada situação, quase pôde se transportar para o tempo presente...
"Você se tornou aquilo que você tanto detestava e lutava contra."
domingo, 6 de setembro de 2026
Houve uma época em que eu tocava bem. Eu estudava muito, pois meus sonhos e objetivos para sair da realidade em que eu vivia, dependiam desse ato, o de tocar bem. Nessa época, os testes para ingressar em conservatórios e orquestras remuneradas eram um pouco diferentes. Hoje está tudo um pouco mais fácil, com vídeo aulas e partituras gratuitas na internet. Naquela época, estudantes de música como eu era, tinham que ir à biblioteca e fazer cópias das partituras, que deveriam ser estudadas com um professor presencialmente, para se ter ao menos o mínimo de noção de como tocar. Você se preparava praticamente um ano inteiro para fazer as provas em fevereiro e março...e, com sorte, ser classificado.
No último ano em que eu prestei tais provas, eu não tive como pagar aulas com um professor particular. Eu tinha um amigo que já era formado em música e tocava violino numa banda e, esporadicamente, ele me dava algumas dicas...mas naquele ano nós havíamos perdido o contato. Mas eu continuava estudando...quase até a exaustão. A "marca de violinista" em meu pescoço ficou roxa, devido as horas de estudo.
Chegou o dia de uma das provas, a primeira de cinco testes que eu faria: dois para conservatórios e três para tentar ingressar em orquestras. Nessa altura do campeonato, eu já sabia como funcionava a "panelinha" da música clássica e a podridão por detrás do meio erudito. Eu entrei na sala de audições quando chamaram meu número. Me apresentei, falei um pouco sobre a trajetória até aquele momento e pediram para eu tocar a peça que havia preparado. Após os primeiros compassos, um funcionário abriu a porta da sala com um ventilador ligado, derrubando as minhas partituras. Eu fechei os olhos e continuei tocando. A banca examinadora ouviu a música quase até o fim... Quando disseram que eu podia parar, fizeram mais algumas perguntas e disseram que eu podia ir embora. Sem reclamações, sem as caretas de desagrado que eu já conhecia. A esperança me tocou. Eu sabia que havia tocado bem, ainda mais sem as partituras.
O teste seguinte, para outra escola de música, foi similar. Toquei bem, a banca fez anotações e eu fui embora.
No teste da primeira orquestra, eu vi alguns rostos familiares, rostos que erguiam os narizes e olhavam para pessoas como eu com olhares contra plongée. Me senti como num filme do Tarantino. Nesse, eu toquei bem, mas não bem como a banca queria.
Na audição da segunda orquestra, eu encontrei um colega. Uma peça rara entre aqueles seres repletos de arrogância. Ele tocou primeiro e "deu o toque" do que a banca estava esperando. Chegou a minha vez. A banca pediu escalas e arpejos diferentes dos que eu havia estudado. Me esforcei para lembrar dos acidentes da escala. Desafinei. Um professor da banca, um homem chamado Ênio, deu risada e fez comentários em voz baixa com os outros integrantes na mesa. Toquei a peça que havia estudado...toquei mal. Mais risadas e uma avalanche de perguntas: quem era meu professor, com quantos anos eu comecei a estudar, quantas horas por dia eu tocava, se meu violino era de fábrica ou de luthier... Disseram que eu podia ir embora e saí sem olhar para trás. Na saída do prédio, encontrei uma colega que queria conversar, mas eu só queria entrar no trem e ir embora.
No teste da terceira orquestra eu não consegui ir. Estava sem o dinheiro da passagem para ir até a USP.
Chegou o dia de ver o resultado. Naquela época a lista com os aprovados não era publicada na internet, você tinha que ir até o local e as listas estavam impressas e coladas na parede, para que vissem. Comecei pelas listas das orquestras. Não passei. Mas eu já sabia que não passaria... A lista da segunda escola de música ficava no mesmo prédio que o das orquestras, mas em outro andar. Meu nome não estava lá. Fiquei triste, mas eu sabia que tinha ido bem na primeira audição, ainda mais tocando sem as partituras. Entrei no metrô e fui até a primeira escola de música para ver as listas. Naquele momento eu estava esperançosa, pra não dizer confiante, de que havia passado. Olhei as listas e procurei meu nome. Olhei três vezes. Não achei. Olhei pela quarta vez. Meu nome não estava lá. Nem como suplente. Se eu pudesse me ver em terceira pessoa, seria como uma cena de filme. Parada em frente ao papel fixado na parede, os olhos fixos e tristes, o braço abaixando sendo acompanhado pela cabeça. Fui ao banheiro e chorei. Quando bateram na porta eu abri e fui embora, tentando controlar o choro por todo o caminho de volta.
Por uma série de motivos, aquela foi minha última chance. Eu não poderia continuar estudando como eu estava, não poderia me dedicar para tentar novamente no ano seguinte. Aquelas audições eram minhas últimas esperanças. E eu não consegui. Como as folhas da partitura que voaram enquanto eu tocava, a última chance que eu tinha se foi sem que eu tivesse conseguido. Foi a última vez em que prestei audições.
Hoje eu toquei a música que toquei na primeira audição daquele dia. Não houveram folhas voando e eu também não fechei os olhos para tocar, pois não me lembro mais das notas, caso me tirem a partitura. Fui inundada por uma sensação que não sei bem como descrever. Eu queria que muitas coisas na minha vida fossem diferentes mas, essa parte, é uma das que eu mais queria que tivesse dado certo. Se o plano que fiz naquela época, com 17 anos, tivesse funcionado, eu teria sido poupada de muitas situações tristes e cruéis... Engraçado que quando um certo alguém me via me dedicando tanto, estudando arduamente, tocando até o pescoço, os dedos e o braço doerem, me criticava e perguntava por que eu queria tanto ser só mais uma no meio de um bando de gente chata. Eu respondia que queria ser só mais uma que venceu, não que fracassou.
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