domingo, 8 de novembro de 2026

 "Eu não consigo falar. As palavras ficam presas na minha garganta. Eu tento, mas eu não consigo!" . Foi o que disse meu irmão quando o confrontei e  implorei para que ele me desse uma explicação, me dissesse o que estava acontecendo, durante uma situação a anos atrás.

  Eu acho curioso como o corpo reage à dor e a certas marcas na alma. Se eu tivesse me dedicado a outras áreas de estudo, acho que conheceria mais sobre. Tenho alguns tiques que desenvolvi por conta da dor e, igualmente, conheço pessoas com tiques involuntários semelhantes. Observei que essa atitude de não conseguir falar, como se algo estivesse atravessado na garganta e não deixasse as palavras saírem, é comum em grande parte das pessoas. Eu me pergunto o por quê mas, com toda a minha hipocrisia, sei que eu mesma não consegui falar muitas coisas que gostaria e/ou deveria.
Eu e meu irmão temos pouco tempo de diferença em nossas idades e, engraçado, minha memória é mais aguçada que a dele para as lembranças da vida. Talvez, tal qual a voz, ele também foi afetado com a perda das lembranças.
Lembro que ele sempre foi uma criança diferente, considerado mais inteligente que as outras. Nos dias de hoje, talvez, ele teria sido diagnosticado com superdotação. Ou, talvez, sua inteligência fosse apenas reflexo da criação que tivemos.
A partir das adolescência, ele se tornou extrovertido e eu gostava de ver a casa com seus amigos, ensaiando para peças de teatro, ensaiando com a banda, assistindo animes ou apenas conversando conversas repletas de risadas. Ele tinha facilidade para falar. Anos depois, porém, emudeceu. Ficou cerca de seis meses apenas se comunicando por gestos. O jovem que antes era lembrado por grupos de amigos, se tornou um fantasma em meio aos seres viventes.
Meu irmão faz aniversário no dia 16 de março e, naquele ano, o canto de parabéns foi no hospital. Mamãe estava internada, mais uma vez. Não sabíamos, mas aquela seria a última internação. Naquele dia nosso pai nos levou para visitá-la e eu estranhei que a mamãe não havia dito nada, pois ela nunca se esquecia do aniversário dos filhos. No meio da conversa, eu perguntei se ela havia esquecido que era aniversário do Lucas. Ela abaixou o rosto e chorou um choro doído, se lamentando por não estar em casa para fazer um bolo para ele. E eu, até hoje, lamento por ter dito aquilo. No dia 28 de março, pouco depois das 3 horas da manhã, o telefone tocou. Meu pai atendeu e o grito dele é algo que, até hoje, me assombra.
Meu irmão não conseguiu chorar. A primeira lágrima que ele conseguiu derramar pela mamãe veio somente seis meses depois.
Eu não sei dizer nem explicar porque as coisas são assim, como são. Recentemente, tive conversas acerca da dor e de como é sentida de formas diferentes pelas pessoas. Eu não sei dizer se a dor causada pela ausência motivou o período depressivo e o obstáculo na garganta do meu irmão. Mas sei que muito da forma como ele age perante a vida hoje, é sequela do pré adolescente desamparado que ele foi.
Vejo muitas pessoas com obstáculos em suas gargantas... será que todas carregam dores que não conseguem sarar?




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